“Vivo em um texto
fora de contexto
que já encontrou mil
pretextos para fugir de si.”
— Catedrais.
O quarto das meninas estava infestado de roupas, tanto em cima das
camas quanto no chão, a medida que Selena escolhia e enfiava quase tudo
na mala. Isabella tentava com esforço acompanhá-la, mas não fazia ideia
do quanto Selena estava anciosa para sumir com tudo aquilo.
O quarto estava vazio. Apenas Selena e Isabella estavam nele, arrumando
a mala da garota. Por incrível que pareça, Selena não parecia se
lembrar de nada do dia anterior. Não que não se lembrasse, mas aquilo
parecia uma lembrança muito distante. Isabella também não tocava no
assunto, apesar de estarem atentas que a escola inteira não falava em
outra coisa.
"A gostosa Selena Gomez finalmente se revelou."
O dormitório de Selena e as outras era gigantesco, assim como todos os
outros. O chão era revestido de madeira e haviam três camas muito
grandes em cada canto. A primeira era de Isabella. Era grande e tinha um
edredom branco. Na mesinha de cabeceira ao lado, havia uma foto dela
com a mãe e a irmãzinha, e, comparada as outras fotos em sua parede
atrás, essa era a única foto que ela tinha com a família. As gavetas do
criado-mudo estavam abarrotadas de chocolate e doces, mas isso não era
novidade pra ninguém. Na parede acima da cama, havia um mural com
inúmeras fotografias coladas na parede. A maioria eram com Selena, em
várias posições e nos mais admiráveis lugares. Embaixo de cada
fotografia, se podia ler:
"Minha amiga maluquinha", ou
"Minha melhor amiga" em
lugares como Suíça, Los Angeles e Índia. As demais fotografias eram com
outras pessoas e também dos artistas favoritos de Isabella.
A outra cama, na frente, era de Selena. Era um exagero de rosa. Sua
cama parecia ser uma das maiores e com um edredom rosa claro, com algum
detalhes de borboletas ao lado. Havia mesinhas de cabeceira dos dois
lados de sua cama, e um armário branco ao lado, que estava infestado de
livros nas prateleiras. Em uma mesinha, havia uma fotografia muito
grande de seu pai, Jayden Gomez. E na outra, uma foto dos dois em
Londres, na frente de um hotel muito chique. As gavetas estavam repletas
de maquiagens, e de outras coisas, como acessórios postos em várias
caixas e suas bolsas.
A terceira e última cama, e a que estava mais distante, era igualmente
bonita como as outras. Seu edredom era um toque de verde claro,
igualmente a parede atrás. Aquela cama parecia ser um pouco melhor, mas
parecia mais confortável. Em sua mesinha de cabeceira estava um abajur
sofisticado e a cama estava em perfeitas condições, como se ninguém
estivesse estado nela por um tempo muito longo. Havia um tapete felpudo a
frente desta, muito branco. Não haviam fotos e nem nada na parede
atrás, como se a pessoa que estivera ali tivesse ido embora.
As paredes do quarto eram impressionantes. Havia apenas um papel de
parede cobrindo tudo, e eram com o desenho de nuvens. Nuvens em um céu
azul, e era muito decorado com pisca-piscas por toda parte, um
verdadeiro varal de pisca-pisca. No lado direito do quarto, havia uma
pequena escada em caracol que levava para outra parte de cima do quarto,
igualmente com pisca-pisca e o papel de parede com nuvens. Os degraus
eram brancos, assim como o corrimão. A parte de cima do quarto era
pequena e nada comparada com a magnitude da parte de baixo, mas bastava
para apenas 3 pessoas. Lá haviam um closet gigantesco, que empilhavam
tantas roupas que era capaz de morrer axificiado lá dentro. A maioria
eram de Selena,
é claro. Haviam também outros armários, mas
menores e feitos apenas para guardar malas e etc. Ao lado do closet, na
beira do andar de cima, havia um espelho gigantesco na parede, que
pegava do chão ao teto, enfeitados ao lado por mais pisca-pisca e sua
borda era cor-de-rosa. A sua frente, havia uma mesa de madeira branca
com muitos perfumes e maquiagens, junto com uma cadeira de veludo preto.
Selena passava a maior parte do dia ali.
Embaixo da escada, presa á parede, havia uma TV de 60 polegadas, mas
quase nunca era usada pelos estudantes, e também servia para o diretor
dar avisos sem ter de sair de seu gabinete.
Todos os dormitórios eram iguais em sua planta, e os alunos agradeciam por poder decorá-los a sua vontade.
Selena continuava colocando suas roupas delicadamente dentro de sua
mala em cima da cama, como se fossem coisas de quebrar. Seu notbook da
Apple branco estava aberto e ligado em de cima de sua cama, uma página
aberta sobre as ilhas do Caribe.
Selena parecia pronta pra sair. Usava uma calça jeans preta de cintura
alta com uma blusa rosa solta de mangas. Calçava tênis vans vermelhos e
seu cabelo solto leve.
Isabella não parava de encarar a amiga. Selena não parava de sorrir, só
de imaginar que veria o pai. Ela agora arrumava a mala mais depressa,
pois já estava sabendo que o pai estava ali na escola naquele momento,
na sala do diretor. Selena sabia que era sobre ela que eles conversavam,
sua travessura do dia anterior, mas não deixou isso abater sua
excitação da viagem de férias.
Isabella também estava pronta pra sair. Usava uma camiseta cinza de
mangas e shorts jeans, com seu cabelo ruivo preso em uma presilha atrás
da cabeça. Seus olhos azuis pareciam mais fortes naquele momento, sob a
luz dos pisca-piscas.
Isabella pigarreou, se virando para Selena.
— Você não acha estranho o seu pai ter vindo falar com o diretor e não ter passado aqui pra te ver? — falou, dando de ombros.
Selena sorriu.
— Não. — respondeu ela.
Ela pegou a fotografia do pai em cima de sua mesinha de cabeceira e deu um beijo.
— Esse é o jeito dele de me dizer que está zangado. Mas eu acho que no
avião eu vou levar uns 2 minutinhos pra ele ficar calminho. — as duas
riram enquanto Selena se sentava em sua cama bagunçada de roupas.
De repente a porta se abriu num baque, e Selena e Isabella arregalaram
os olhos. Joe e uma garota estavam atracados aos beijos como dois leões
ferozes. Ele segurava a cintura da garota com força enquanto apertava
sua bunda com a outra mão. A garota era uma loira colossal com olhos
muito azuis, e Selena a reconheceu na hora. Ela vestia um vestido roxo
curto e soltinho, com uma blusinha de frio branca que estava puxada até
os cotovelos. Joe parecia colocar as mãos por baixo do vestido da
garota.
Quando finalmente notaram que não estavam sozinhos, a garota olhou
constrangida para Selena e Isabella, que continuavam imóveis e se
seguravam para não rir. Joe coçou a cabeça. Não parecia nada
envergonhado com tudo aquilo.
A garota rolou os olhos pelo quarto e juntou as sobrancelhas.
— Quem fez isso no meu quarto?! — ela arfou, vendo que haviam roupas de
Selena espalhadas por toda parte — Deve ter sido você, não é? — ela
apontou para Selena, com desprezo.
— Ai, calma! Não se estressa. — Selena mal parecia ouvi-la, estava
ocupada demais com sua mala — Olha, em vez de ficar reclamando, porque
você não dá um trato no seu cabelo? Porque, me desculpe, mas essas
pontas estão horríveis. — ela soltou uma risada — Não fica zangada.
A garota olhou para Selena com profundo ódio.
— Sabe que eu não te suporto? Eu vou agora mesmo pedir que me mudem de quarto!
E ela saiu, batendo os pés e bufando de raiva, tanto que nem percebeu
que Joe continuava parado a porta, apenas observando a cena.
— Espera aí... — tentou Isabella, mas a garota já tinha ido.
Selena parecia ter uma expressão de choque.
— Você viu? Que garota estranha. — ela levantou o cenho.
— É, Selena, exagerou. — falou Joe, pela primeira vez. Ele cruzou os
braços e se aproximou da cama de Selena — Sinceramente, eu acho que não é
bom você armar um escândalo depois do que fez ontem.
Selena deu um sorriso sarcástico ao garoto, e se levantou.
— Quer saber de uma coisa? Acho bom não esquecer que estou acima do bem e do mal. — ela piscou, ficando de frente pra Joe.
— É mesmo? — ele deu de ombros, se aproximando mais de Selena. Ou
melhor, de seus lábios — Mas se você for expulsa, como é que nós vamos
ficar juntos?
Selena soltou uma gargalhada e se virou para Isabella.
— Que lindo, não é? — ela apontou para Joe — Sabe qual é o problema,
fofinho? Eu não tenho vocação pra babá. Entendeu, bebezinho?
— Bebê? — ele fez uma expressão sem entender enquanto Isabella ria da cena.
Antes de Selena falar algo, seu próprio pai entrou no quarto. A garota soltou um gritinho e correu até ele.
— Papai! — ela o abraçou — Eu pensei que era o William que viria!
Jayden olhou para os outros no quarto.
— Podem nos deixar a sós, por favor? — pediu ele, em tom seco.
Joe rapidamente disse "É claro, com licença" e se retirou do quarto,
lançando um último olhar sedutor para Selena. Isabella largou as roupas
de Selena em um canto e deu um abraço em Jayden antes de sair.
— Pai, que bom que você veio! — Selena estava vibrando de felicidade — O que aconteceu?
— Aconteceu uma coisa muito grave, filha.
O sorriso de Selena murchou por alguns segundos, tentando assimilar a situação.
— Ai, que cara séria é essa? — falou ela, pensando que era uma bobagem —
Porque você não me ajuda a arrumar a minha mala? — ela foi até a cama
novamente, sorrindo — E na viajem você me conta tudo com calma, vamos
ter muito tempo...
— Não vai ter mais viajem, Selena!
Selena parou abruptamente, piscando os olhos.
— Esqueça as férias. — Jayden suspirou.
Selena continuava chocada. Era como se o pai tivesse dito que iria
cancelar seus cartões de crédito pra sempre, mas muito pior do que isso.
— Como assim? — a voz da garota falhou.
Jayden olhou para a filha com certa pena, mas logo essa expressão
passou. Ele era bom quando se tratava de ser duro com Selena na hora
certa, não importava a cara de choro que a garota fizesse.
— É o castigo pelo que você fez. — explicou Jayden.
Selena torceu os dedos, ainda encarando o pai. Ela não viu nenhuma
compaixão ou pena, e sua desconfiança de que ele nunca quisera passar o
tempo dele com ela só crescia. Ela sabia que havia feito uma burrada na
noite anterior, mas acreditava que o pai havia pedido aquilo, por não
cumprir sua promessa.
Seus olhos começaram a ficar marejados. Ela simplesmente não sabia o que dizer.
— Mas... — ela balançava a cabeça — Pai, mas... Eu nunca vejo você,
pai. — ela se aproximou dele — Nem nos fins de semana você está comigo. —
ela soluçou — Pai, porque não amarra um lacinho em mim e me dá de
presente?
Jayden suspirou. Ele já previa a reação de Selena antes mesmo de pronunciar as palavras.
— Não. — ele balançou a cabeça negativamente — Faço isso pro seu bem. Você tem que aprender a respeitar as normas.
Uma lágrima rolou de seu rosto. Ficar na escola durante as férias? A
viajem tão esperada as ilhas do Caribe não aconteceriam mais? Era isso?
— Se não me levar... — sua voz estava completamente embargada — Eu não vou te perdoar nunca. — ela trincou os dentes.
Jayden baixou os olhos, como se a conversa já tivesse acabado pra ele.
— Eu sinto muito. — ele sussurrou — É uma lição que eu tenho que te
dar, ainda que me doa. O que você fez foi demais, Selena. Fez um papel
ridículo no colégio, deixou o diretor com vergonha, e...
— Ok, ok, eu sei! Isso importa muito. — ela enxugou o rosto com as
costas da mão — Mas eu fiquei te esperando, pai. Eu preparei uma
coreografia pra você. Eu estava esperando você chegar pra me ver e você
não chegou. — ela bufou, agora chorando alto — Mas você se importa mais
com o ridículo, não é? Se importa mais com o ridículo do que com os
sentimentos da sua filha! — ela aumentou o tom de voz.
Jayden permanecia quieto. Não sabia o que dizer, mas o que mais diria? Pra ele, o assunto já estava encerrado.
— Você sabe o que eu senti? — continuou Selena — Eu te esperei horas, pai, e você nem apareceu!
Selena agora sentia raiva. Ela sabia exatamente que aquela não era a
primeira vez, ela já até perdera as contas de quantas vezes seu pai já
havia lhe dado esse tipo de furo. A garota enxugou o rosto mais uma vez e
saiu do quarto o mais rápido possível.
Demi saiu do táxi na Brentwood, perto da Getty Center, já que ela e a
mãe ainda estavam em Los Angeles. Ela pagou algumas notas para o
motorista, que se mandou rapidamente. Demi inspirou e colocou seus
óculos escuros, se sentando em um banco verde de mármore em uma das
calçadas. Demi vestia uma blusa azul-marinho sem mangas com um colete
azul-claro preso, com uma calça jeans clara e sapatilhas.
Ela não parecia ser uma turista naquela região da cidade, parecia mais estar esperando uma pessoa.
Demi verificava o celular constantemente, e também olhava para os lados
como se estivesse sendo observada. Quem olhasse, achava que estava
fugindo de algo.
De repente, no final da rua estreita, um carro apareceu. Era um carro
incrível, totalmente do ano e com certeza chamava a atenção pra quem o
visse. Parecia um dos carros caros das propagandas da TV, mas Demi não
pensou nisso quando ele estacionou bem a sua frente.
A porta de trás abriu e uma figura apareceu. Uma figura de barba rala e
cabelos levemente cacheados, posto num terno de grife. O pai de Demi.
Ao vê-lo, Demi se levantou entediada.
— Queria falar comigo? — disse ele, se aproximando da menina — Bem, eu estou aqui.
Demi não sabia como cada palavra que saía da boca daquele homem pudesse
irritá-la tanto, então não fez esforço algum para parecer gentil.
— Escuta aqui...
— Por favor, filha. — ele suspirou, se arrependendo de ter pensado por
um segundo que Demi o trataria bem — Não faz assim. Eu sou o seu pai.
— Ah, é? Não me diga. — ela deu uma risada irônica — Já tinha esquecido, eu não vejo você.
— Minha filha, por favor...
— Me chame de Demi, os estranhos me chamam assim! — ela bufou, não
vendo a hora de se mandar daquele lugar — E se quer que eu vire freira,
deixa eu te dizer que...
O homem olhou para Demi confuso.
— Não, não. — ele balançou a cabeça — É um internato, não é um convento.
— Pra mim dá na mesma, ok? Esquece! Não vou aceitar.
— Olha, você é muito nova pra entender, mas quando for adulta vai entender e me agradecer. — ele deu um sorriso fraco.
Demi revirou os olhos. Não chegariam a lugar algum com aquela conversa.
Aquele sujeito não iria se opôr tão fácil, e se ele desistisse, ela
teria que ir pra Europa, custe o que custar, com aquele mesmo sujeito.
Ela não podia acreditar no que aquilo estava se transformando.
Demi estava tão atônita que não havia percebido uma pequena confusão
com os policiais bem na frente do carro do pai. O motorista, um homem
jovem bonitão e musculoso de cabelos negros, discutia com dois policiais
a sua frente. Um deles era alto e magro, com cabelos claros e olhos
azuis. O outro era moreno, com a pele escura e cabelos black-power.
Ambos discutiam com o motorista bonitão que parecia ser cego para não
enxergar a placa de "não estacione" bem em frente a calçada.
Seu pai não parecia estar percebendo nada daquilo, mas Demi teve uma
repentina ideia. Seria loucura, é claro. E por isso mesmo ela iria
colocar em prática.
— Tem razão. — ela disse repentinamente, se virando para o pai, em um
tom doce e meigo — Pai... — ela o abraçou forte pelo pescoço, enterrando
o rosto em seu peito — Senti muito a sua falta, pai!
O homem não sabia o que fazer, mas não podia esconder que estava feliz. Abraçou Demi imediatamente, com um sorriso no rosto.
— Eu também, minha filha. — ele sorriu, acariciando os cabelos de Demi.
— Me abraça forte. — Demi pareceu esganar o homem, que pareceu não
sentir nada, tamanha era a felicidade — Me dá um beijo. — ela
choramingou.
— Claro! — ele sorriu, dando um beijo em sua testa — Eu te amo, meu amor!
E de repente, Demi fez algo inacreditável.
— Ai, me solta! — ela berrou, empurrando o homem com tudo pra longe com um grande soco.
Seu pai a olhou espantado.
— Seu velho, safado, imundo! Seu estúpido! ME SOLTA, ME SOLTA!
Ela berrava, e o homem não sabia o que fazer. Como previsto em seu
plano, os policiais rapidamente apareceram a seu lado, deixando o
motorista do senhor Lovato muito aliviado por não receber uma multa.
— O que está havendo aqui? — perguntou o policial de olhos azuis. Ele olhava de Demi para o pai, com uma expressão confusa.
— Nada, eu não fiz... — tentava dizer o senhor Lovato.
— Esse velho queria abusar de mim! Seu estúpido! — Demi gritou, apontando para o pai, a raiva espumando dentro de si.
Um dos policiais, o mais escuro, por um momento olhou espantado para o
homem e depois para Demi. Pela sua expressão, até ele não sabia o que
fazer nem dizer naquele momento. Demi estava histérica, nada parecia
muito nexo.
— Ér... Vamos, senhor. — disse o policial, pegando em um braço do senhor Lovato.
— Esperem, eu posso explicar! Não é nada disso, ela é minha filha! —
ele falou alto, ainda chocado pela atitude de Demi, enquanto ia sendo
arrastado para uma viatura na esquina — Demi, explica pra eles... DEMI!
Só que Demi não estava mais lá para escutar nada. A garota já havia
entrado no primeiro táxi que passara pela rua, e estava gargalhando.
Sabia que seu pai não chegaria nem perto da delegacia, ele tinha os
melhores advogados do mundo, mas além disso ele tinha dinheiro. Mesmo
assim, a ideia da tremenda diversão não saía da cabeça da garota.
A Academia Yancy estava cheia naquele momento. Todos os alunos que
sairiam de férias com os pais começavam a se retirar da escola naquele
momento, o que era uma multidão. Vários carros esperavam nos portões da
instituição naquele momento, vários pais esperando os filhos com malas e
sorrisos no rosto.
A secretária, a loira dos óculos enormes, andava pela escola na
multidão com uma mulher a seu lado. Hoje ela vestia calças jeans e uma
blusa de mangas compridas, as quais ela havia enrolado até os cotovelos.
Estava com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e seus olhos pareciam
mil vezes maiores daquele jeito.
A mulher a seu lado era alta e magra, com cabelos pretos cheios e olhos
azuis. Ela era linda, e traços em seu rosto mostravam que ela se
aproximava da velhice. Mesmo assim, a mulher vestia um vestido preto de
alcinhas com a parte inferior florida, com sapatilhas pretas. Parecia
bem humilde, a julgar que ficava impressionada a cada coisa que a
secretária lhe apontava.
As duas andavam pela escola vagamente, a secretária parecia muito bem
estar apresentado a escola para a mulher, que como disse, ficava
impressionada a cada detalhe.
— E este corredor vai dar numa área dos dormitórios. — ela apontou para
um corredor largo e estreito — É claro, as mulheres e os homens estão
bem separados, como deve ser. — ela deu um sorriso simpático — Na
Academia Yancy temos três objetivos fundamentais: disciplina, excelência
acadêmica e respeito.
Agora as duas se aproximavam do corredor central. Era uma área bastante
larga. As paredes eram revestidas de pedra rústica. No meio do corredor
havia uma estrutura de mármore negro colada ao chão, como um retângulo
aberto. Vários alunos se sentavam ali nos intervalos das aulas, sua
espessura era do tamanho de uma pessoa, assim tinham uns que até se
deitavam no mármore gelado.
Para todo lado que se olhava, viam-se corredores para as diversas
direções. Para as salas de aula, os dormitórios ou para sair da escola.
Haviam banquinhos de veludo vermelho presos ás paredes em toda parte, e
as janelas de vidro eram gigantescas, o que dava para ver o campus lá
fora. No lado direito, havia uma escada enorme e branca, que levava para
outras salas de aula e dormitórios no segundo andar. Havia escadas
espirais dos dois lados, cada uma levando para mais salas e dormitórios
diferentes. Colados ás paredes tinham os armários, todos em um tom forte
de azul.
A mulher ao lado da secretária ficava impressionada com tudo, parecia uma criança entrando na Disneylândia pela primeira vez.
— Escute, eu quero perguntar uma coisa. — a mulher falou pela primeira vez — O que me interessa saber sobre a bolsa?
A secretária abriu um sorriso alegre, como se tivesse prazer ao falar daquele assunto.
— Ah sim. A cada ano, um grupo de jovens de poucos recursos tem a
oportunidade de entrar pro nosso colégio. Eles fazem uma prova muito
rigorosa, porque temos de ter certeza de que tem o nível intelectual
adequado. — ela disse, ajeitando os óculos enormes.
— Na realidade, eu não tenho...
— Emma! — gritou uma voz feminina.
A secretária rapidamente se virou ao ouvir seu nome. Uma garota loira
descia as escadas em passos pesados, usando um vestido roxo, com a
expressão de tremenda. Era a garota do quarto de Selena.
— Eu quero que você me mude de quarto! — ela falou alto ao chegar perto
de Emma com a mulher — Eu não suporto a Selena! Quem ela pensa que é,
aquela vadiazinha? A rainha da Inglaterra?
Emma colocou as mãos na testa, entediada. A garota ainda a olhava com
raiva, esperando uma resposta. Emma olhou de soslaio para a mulher a seu
lado, que permanecia calada, e ficou completamente constrangida.
— Tudo bem, minha querida, arrume suas coisas, depois conversamos. —
ela deu um sorriso forçado para a garota, como se a mandasse embora só
com a força dos olhos.
— Acho isso o cúmulo, sabia?! — ela gritou pela última vez antes de se retirar.
Emma deu um riso sem graça ao se voltar para a mulher.
— Aqui os alunos se sentem como se estivessem na casa deles. — ela deu um sorriso amarelado.
— Tudo bem. — a mulher riu.
— Além disso, nas férias oferecemos aos alunos o Club de Vacaciones. — ela sorriu.
A mulher a olhou confusa.
— O que é isso?
— É o nosso clube de férias. É um lugar onde os alunos descansam e vão
se conhecendo uns aos outros antes de começarem o ano letivo. — a mulher
assentiu — Eu me refiro aos alunos novos, como a sua filha.
A mulher hesitou, como se estivesse incomodada.
— Bom... Ela não é minha filha. — ela deu um sorriso fraco — É minha
sobrinha, mas eu a amo como se fosse minha filha realmente.
— Sim, claro. — Emma assentiu — Bom, venha por aqui.
As duas seguiram por mais um corredor estreito, quando pararam no meio do caminho.
As duas deram de cara com o deputado Collins e sua esposa, que como
sempre, estavam cercados por no mínimo dois seguranças. Emma sentiu
náuseas. O senhor Collins estava como sempre: barrigudo e carrancudo,
com seu inseparável charuto. Sua mulher, uma jovem alta e escultural
loira de cabelos encaracolados e olhos azuis com metade de sua idade,
estava usando um vestido caro preto de setim, com seu inferior florido
de verde. Seu salto era enorme.
Ela também fumava um cigarro, o que fez Emma se controlar para não mandá-los pro inferno.
— Com licença, Emma. — disse a mulher, dando um sorriso animado que não
foi correspondido pela secretária — Onde podemos encontrar o Joezinho?
Ah, claro, estavam procurando o filho. Não pisavam no colégio para fazer outra coisa, afinal.
— Acredito que esteja no quarto dele terminando de arrumar as coisas. — respondeu Emma educadamente.
— Que sapatos lindos! — exclamou a mulher com Emma, falando pela
primeira vez. Ela apontou para os sapatos da primeira-dama, como se
estivesse se segurando desde que a vira.
A mulher deu um sorriso anormalmente largo.
— Muito obrigada! — ela piscou para a mulher, com certeza mostrando bem sua capacidade e condição de comprar sapatos caros.
Emma bufou.
— Podem ir ao quarto, por favor! — ela interrompeu o começo de um
diálogo chato e melancólico sobre os sapatos italianos da esposa de
Collins e apontou para a escada da esquerda — Já sabem onde é.
— Com licença. — disse o senhor Collins, puxando a mão da esposa e desaparecendo escada acima.
A mulher ainda parecia atônita com os sapatos da primeira-dama, e os seguiu com os olhos até desaparecerem na escada.
— Aquele não é Michael Collins, o deputado? — ela pareceu "acordar" de repente.
Emma revirou os olhos.
— Ér... Venha por aqui, por favor. — ela puxou o braço da cliente, que
ainda virava o pescoço para poder olhar melhor o deputado.
— Como é lindo, não é? — ela murmurava enquanto seguia Emma pelos corredores.
O deputado e sua esposa se aproximavam do quarto de Joe, mas o local
estava completamente vazio. Naquele mesmo momento, Joe atropelava
algumas pessoas no caminho enquanto praticamente corria para a saída da
escola. Sabia que iria ter que viajar para não sei onde com o pai para
mais uma campanha eleitoral, e ele de repente ficara apavorado com a
ideia de perder suas férias com coisas tão fúteis. Isso não entrava em
sua cabeça.
Ao chegar no estacionamento, Jacob já estava lá, encostado na porta do
táxi que os esperava. Joe ajeitou a mochila nas costas e correu até o
amigo.
— Ninguém me viu. — ele disse, arfando.
Jacob sorriu.
— Muito bem, vamos nessa. — ele abriu a porta do carro, entrando no
táxi pela porta do carona. Joe rapidamente entrou no banco de trás e o
motorista cantou pneu no estacionamento.
O dormitório de Joe estava intacto, como se ninguém nunca tivesse
pisado nele. O dormitório tinha a mesma planta que todos os quartos do
colégio, com a mesma escada no fundo que leva aos closets e a TV enorme.
A diferença era apenas a decoração. As três camas tinham o mesmo
edredom azul-marinho, e uma mesinha-de-cabeceira ao lado de cada cama.
As paredes eram pintadas de preto, com vários postêrs de carros e
mulheres colado e o teto era branco, pendendo uma luminária gigantesca. A
primeira da frente sem dúvida era a de Joe. Em sua mesa, havia apenas
um abajur. Na parede acima da cama havia apenas um retrato de Joe
segurando um violão nas costas, e em outro havia ele e Jacob segurando
pranchas de surf na praia de Malibu. Nada de retratos de família.
A outra cama, na frente da primeira, era a de Jacob. Em sua mesinha
estava um notbook fechado e uma luminária pequena. Em uma das gavetas
havia uma revista da Playboy, mas isso não era novidade pra ninguém. Ao
contrário de Joe, no mural de fotos de Jacob haviam várias. Fotos com a
família e muitas com Joe. Retratos de shows e eventos musicais ao qual
ele havia ido, shows como de Beyoncé e Maroon 5 enfeitavam a parede,
vários com sorrisos do garoto estampado.
A terceira cama, a mais distante, estava vazia. Não havia nada na mesa e
nada nas paredes. Se alguém ocupava aquele lugar, aparentemente não
ocupava mais.
No armário gigante perto da cama de Joe, havia uma fila de CDs e um
iPod jogado. Havia um aparelho de som um pouco velho, e uma das
extremidades do armário havia um papel colado escrito em letras
exasperadas: vote em Collins!
Michael ficou apreensivo ao ver o quarto vazio. Podia ver a mala de Joe em cima da cama do garoto, mas onde ele estava?
Antes de ter tempo para se irritar, um garoto chegou até ele. Ele tinha
os cabelos muito loiros espichados e olhos castanhos. Era magrelo e
desengonçado. Parecia apavorado de estar chegando perto do deputado.
— Senhor Collins? — ele murmurou.
Michael olhou pro garoto.
— Sim?
— Aqui tem um recado. — o garoto estendeu um fino pedaço de papel — O Joe que deixou.
Michael pegou o papel confuso, como se fosse uma bomba.
— O Joe que deixou? — ele disse, ainda confuso. O garoto apenas assentiu, e foi se afastando — Que estranho.
Michael deu mais uma tragada no charuto antes de ler o bilhete. Ao
terminar, sua expressão era de raiva e completa decepção. Sua mulher
olhava o marido, esperando uma resposta.
— É o cúmulo. — ele bufou, apertando o papel com tanta força que quase o amassou.
— O que? O que ele escreveu? — perguntou ela, ansiosa.
Ele a encarou, como se quisesse matá-la só por fazer ele ter que ler o maldito recado de novo. Por fim, ele recitou:
— "Pai, mãe... Eu fui embora. Não importa pra onde. Não se preocupem,
eu sei me virar sozinho. Depois eu ligo." — Michael bufou, amassando o
papel.
Sua esposa estava de olhos arregalados.
— Ele fugiu! — disse ela, com a voz falha — Ah não...
— Calma, não se preocupe. — ele tentou acalmá-la, olhando para o
bilhete amassado em suas mãos. Pensava em todas as maneiras possíveis de
matar Joe, porque ele com certeza estava muito encrencado.
Em algumas horas, Joe e Jacob estavam na Califórnia. Pra ser exato,
estavam em Salinas, uma cidadezinha do estado meio parada e monótona.
Eles não queriam saber, só queriam passar um tempo fora da Yancy e
daqueles rostos que estavam enjoados de ter que encarar. Joe sabia que
estava encrencado até o pescoço, mas naquele momento aquilo era o de
menos.
Finalmente, haviam chegado a seu destino. A casa de Jacob já estava sem
graça pra Joe, de tanto que estivera ali, mas estava vazia, o que
tornava tudo melhor.
(casa)
Eles entraram e se acomodaram. A casa estava vazia, exceto pela
empregada, que delas eles não poderiam fugir. Ela era uma mulher jovem
com cabelos lisos até os ombros cor de caramelo e uma pele bronzeada. Na
opinião dos garotos, sim, era bastante gata. Mas não se atreveriam.
A tarde se arrastava devagar. Joe e Jacob já haviam curtido na piscina,
bebido tudo que tinham direito, e não podiam deixar de fora a diversão
principal. Joe e Jacob eram amigos desde sempre, por isso não tinham
segredos. Joe pegou a maconha da mochila, uma coisa que ele usava de vez
em quando, já que passava a maior parte do tempo em uma prisão. Ele e
Jacob "usavam" a pouco tempo, aquilo os ajudava a relaxar, ao que
diziam.
Os garotos estavam sentados nas cadeiras da varanda principal da casa quando a empregada foi até eles, com o telefone na mão.
— Ér... É do colégio. — ela colocou o telefone em cima da mesa — Com licença.
A empregada se retirou e o coração de Jacob pareceu virar chumbo. Ele e
Joe se entreolharam, parecendo pensar a mesma coisa. Eles estavam na
Califórnia, como os haviam descobrido?
Joe rapidamente pegou o telefone, colocando as mãos no lugar onde podiam os ouvir.
— Ah, não, cara. Agora vai dar merda! — Jacob sussurrou, começando a ficar nervoso.
— Atende você. — falou Joe, estendendo o telefone para Jacob.
— Como assim, cara? Não!
— Jacob, por favor! — Joe trincou os dentes. Jacob continuava relutando
— Jacob, por favor, é o meu pai, ele quer saber onde eu estou!
Jacob olhou do telefone para Joe, e em seguida pegou o objeto da mão do garoto, relutante.
— Cara, isso vai dar a maior merda da história. — ele pegou um
guardanapo das mesas na beira da piscina e abafou a entrada de som. Em
seguida, ele deu umas tossidas e falou em uma voz grossa e diferente: —
Alô, boa tarde... É, sim, ele não se encontra... Não, ele não está
aqui... Jacob chegou aqui a umas 4 horas... Sim, com muito prazer... Boa
tarde. — Jacob desligou o telefone, mas não o tirou da orelha — Sim...
Joe Collins está aqui, quer que eu passe pra ele?
Joe escancarou a boca e deu um empurrão em Jacob, completamente apavorado.
— O que está fazendo?! — ele "gritou" em sussurros.
Jacob retirou o telefone do ouvido e explodiu em risadas. Joe entendeu a
brincadeira e o olhou sério, com a mão no peito, dizendo o quanto Jacob
fora sem graça e assustador com a brincadeira.