segunda-feira, 28 de abril de 2014

Capítulo 8 - "All or Nothing"

“Na vida tudo passa, não importa o que tu faça.” — Túlio Dek.

  Em Dallas, Texas, o salão "Make Boutique" estava vazio naquela tarde. Não era um local que chamava muito a atenção das pessoas que passavam, com as portas foscas de vidro preto e os dizeres em cima com o cartaz já gasto.
 Lá dentro, pelo contrário, as conversas estavam animadas. Taylor estava sentada em uma das cadeiras alcochoadas de frente ao enorme espelho espaçoso, enquanto sua tia, uma mulher de meia-idade com os cabelos loiros pintados com mechas de várias cores, penteava cuidadosamente o cabelo da garota.
 Taylor era alta, magra e curvilínea. Tinha cabelos loiros chamativos de parar o trânsito e olhos azul-turquesa, que era de causar inveja. A garota era uma gata, se não fosse tão tímida e inocente, e não tivesse tanto medo de encarar o mundo afora.
 Sua tia falava animada, enquanto ajeitava os cabelos de Taylor, fazendo seus cachos se sobressaírem no rosto emoldurado.
 — Ah, quando você conhecer o colégio, não vai acreditar. — ela sorriu para a imagem de Taylor no espelho, um sorriso confiante — Parece até que é um hotel de 5 estrelas. Os quartos são como suítes presidenciais, lindos.
 — Tia, e se não me aceitarem? — Taylor disse, quase em um fio de voz — O que eu vou fazer? O que vai acontecer se eu não conseguir entra pra esse colégio?
 — Mas porque, filha? — a mulher colocou a escova que penteava os cabelos de Taylor de lado — Porque não vão aceitá-la e não vai entrar pro colégio? Diz.
 — Não, é que eu morro de medo de não passar nessa prova. — ela virou a cadeira para ficar de frente para a tia. Suas mãos estavam quase tremendo, só de pensar na possibilidade de não entrar na Academia Yancy.
 A loira abriu um sorriso sem mostrar os dentes. Ela entendia o sofrimento agudo de Taylor naquele momento.
 — Você será aprovada. — falou ela.
 — Depois de tudo que ficou gastando com meus professores particulares pra que eu pudesse entrar... Mas eu prometo, eu prometo, que eu vou pagar por tudo que você já fez por mim.
 — Esqueça essa ideia de pagar! — a mulher olhou torto para Taylor — Porque se disser de novo, eu queimo seu cabelo, faço um permanente, vou deixar tudo verde, o que você acha disso? — ela ergueu uma sobrancelha.
 Taylor se levantou, segurando uma risada.
 — Então você vai me maltratar?
 — Vou sim, vou deixar você careca, o que você acha?
 — Que má! — as duas riram e se abraçaram no instante seguinte.
 — Obrigada por tudo, tia.
 — Você não tem o que agradecer, filha. E lembre-se: se não gostar de alguma coisa, ous e alguém mexer com você, se aqueles ricos exibidos quiserem te maltratar, não esqueça de me ligar, Taylor, já vou avisando!
 — Espera, se lá eu vou ter que estudar com adolescentes exibidos, porque eu to indo?
 — Ah, Taylor, não reclame! Você tem que crescer. Olha, o preço nós temos que pagar, temos que pagar pra ser alguém. Você tem que sair desse bairro, dessa cidade, minha querida. Você é muito mais do que isso tudo. — ela olhou com ternura para Taylor.
 Um conforto repentino tomou conta de Taylor. Ela abraçou a tia, querendo cada vez mais aquele abraço, mesmo quando fosse embora. Não se dera conta do quanto sentiria saudades, de todos os conselhos e broncas, e também de todas as brincadeiras. Pensava que nada mais iria fazer sentido sem ela ao lado, mas entendia que precisava ir. Tinha a consciência de que a vida começaria a andar, a sair um pouco dos trilhos, mas por uma coisa boa.
 As duas foram interrompidas por uma mulher entrando no salão vazio.
 — Taylor! — chamou ela, com uma voz severa.
 As duas se desfizeram do abraço. A loira com mechas coloridas encarou mortalmente a mulher de cabelos castanhos e maçãs do rosto muito vermelhas que acabara de entrar.
 — Você vai lá em casa se despedir da sua irmã ou vai embora direto daqui?
 — Não, é claro que eu vou me despedir da Emily, mãe. Aliás, sem a sua permissão eu não vou a nenhum lugar.
 As palavras de Taylor foram duras e ela se retirou, deixando as duas mulheres se encarando.
 — O que está olhando? — perguntou a loira de mechas, olhando com certo desprezo para a mulher a sua frente — Gostou da minha cor de cabelo? Gostou? Posso pintar o seu de graça.
 A mulher bufou, dentro de si não suportava esse jeito irritante e prepotente.
 — Agora que conseguiu separar a minha filha de mim, deve estar contente, não é, Abigail?
 Abigail sorriu.
 — Se quiser que eu diga a verdade... Sim. — ela deu de ombros.
 — O que ganha tirando a minha filha de casa? — ela cerrou os dentes — Anda, diga!
 — Eu não ganho nada. Vou sentir muito mais saudades do que você. Mas sabe quem vai ganhar? Isso mesmo, a Taylor.
 — Você sabe perfeitamente que eu preciso dela. — a mãe de Taylor balançou a cabeça — Porque encheu a cabeça dela de merda, por que?!
 — Porque até disso ela tem direito! Tem o direito de ter a cabeça cheia de merda, ela tem o direito de ter uma história diferente, porque a história não vai se repetir, tem que ser diferente de nós duas!
 — Ah claro! — a mulher deu uma gargalhada que ressondou por todo o recinto — Desde que não levem ela pra onde levaram você, não é? Tomara que a minha filha não seja uma prostitua como a tia dela foi. — ela disse com repugnância.
 Abigail lançou um olhar frio para a irmã, cheio de mágoa e rancor.
 — Não, ela não vai ser prostituta, eu tenho certeza. Mas quer saber? Ela também não vai ser a enfermeira da irmã dela a vida toda.
 — Você sabe perfeitamente que ela ama a irmã dela!
 — Mas é claro que ela ama, a menina gosta dela, mas você é a mãe dela! Taylor não é a mãe de Emily, e tem que ficar cuidando dela, entenda que a mãe é você, entenda! — ela gritou.


 — Oi. — Taylor disse ao encontrar a irmã pequena tentando subir as escadas.
 — Ainda faltam alguns degraus. — Emily apontou pra cima enquanto Taylor a segurava pela cintura e a sentava ao seu lado na escada de madeira, com um pequeno caderno surrado nas mãos.
 — Olha, vem aqui. — Taylor suspirou — Aqui, nesse livrinho, eu vou escrever tudo que acontece comigo. Pra quando eu vim ver você, eu vou contar tudo como se estivesse lendo uma historinha, tudo bem?
 Emily balançou a cabeça, concordando com tudo que Taylor dizia. As palavras pipocavam um pouco em sua cabeça quando Taylor falava, por causa da síndrome de Down, mas entendia perfeitamente. Só não entendia o quanto estava sendo difícil para Taylor partir, o quanto estava sendo doloroso ter de deixá-la ali, aos cuidados da mãe, que mal cuidava de si própria, quanto mais ter de ficar vigiando Emily 24 horas por dia. Isso era trabalho de Taylor, por mais que ela tivesse de se "libertar" disso agora. Precisava viver a vida.
 Emily baixou a cabeça. De repente pegou na mão de Taylor, que estava sobre o colo, e a apertou, como se não fossem mãos reais. Emily se lançou para Taylor em um abraço desengonçado.
 — Porque? — ela perguntou, com os olhos no horizonte — Porque, Taylor?
 Parecia que naquele momento Emily havia entendido que Taylor não estaria mais ali. Talvez não tivesse entendido perfeitamente, mas havia compreendido que iria ficar sem ela. Taylor agarrou as mãozinhas que a cercavam e lutou para que não chorasse. Não queria chorar, não iria chorar.
 — Eu também vou sentir muito a sua falta. — Taylor olhou nos olhos azuis de Emily, afastando alguns fios louros de seu rosto — Mas você e eu sempre vamos estar juntas. — ela deu um beijo no rosto de Emily, enquanto a menina brincava com alguns cachos soltos do coque de Taylor — A minha tia me prometeu que vai vim aqui te pentear todos os dias. E vai te deixar mais bonita do que se eu estivesse com você. E ela vai pintar suas unhas também.
 — É? — os olhos de Emily brilharam — As unhas?
 — Sim, as unhas. — as duas riram.
 Taylor puxou Emily com cuidado pela escada acima, em direção ao pequeno quarto das duas. Emily pulou na cama enquanto Taylor pegava uma caixa de papelão de cima do armário de madeira e se postou na frente da irmã.
 — Agora você vai ser a responsável por todos os nossos brinquedos, ok? Você promete? — Taylor abriu a caixa enquanto Emily concordava com a cabeça.
 De repente um nó se formou na garganta de Taylor. Emily pegou cada coisa de dentro da caixa. Um dominó, uma boneca de pano, alguns cds... Ela não prestava mais atenção em nada enquanto mexia nas coisas com tanto cuidado. Taylor respirou fundo, como se toda a água de seu corpo estivesse na porta dos olhos, prontas para sair em lágrimas.
 — Eu não quero te deixar. — ela disse, e percebeu como sua voz saiu rouca — Mas eu tenho que ir.
 — Porque? — perguntou Emily, com seus olhos no urso de pelúcia entre suas perninhas.
 — Porque... Porque eu quero ser uma grande médica pra cuidar de todas as crianças como você. — ela alisou os cabelos de Emily. Depois, em cima da mesinha de cabeceira, ela pegou um retrato onde havia uma foto dela e de Emily — Olha, eu tenho essa foto de nós duas. Eu vou ficar com uma foto igualzinha essa pra sempre me lembrar de você. E você também.
 Emily olhava o retrato com cautela, como se tentasse reconhecer as pessoas da foto. Depois, em súbito, ela gritou, apontando para o retrato "Sou eu! Sou eu! E você!", e apontava para Taylor, abrindo um enorme sorriso. Beijou o retrato com carinho, abraçando-o logo em seguida. Taylor limpou a lágrima que caiu, rindo de como Emily ficava ao ver fotografias.
 — Eu prometo que quando eu acabar a escola, eu nunca mais vou deixar você sozinha. Nunca mais. Eu vou voltar pra ficar com você, eu prometo.
 Taylor agora chorava. Não era uma coisa muito habitual de se fazer na frente de Emily, mas era algo que não conseguia mais segurar. Estava indo embora. Deixando pessoas que amava e que precisavam dela. Principalmente Emily.


  — Me disseram que você estava bem, mas não tão bem! — falou Jacob.
 Depois de Joe ter dispensado todas as visitas recebidas, inclusive a de sua mãe, ele nunca dispensaria uma visita de Jacob, que ele estava surpreso por estar ali. Jacob não havia sido prejudicado pelo acidente. Via-se um pequeno corte em sua testa, perto da sobrancelha, que já começava desaparecer. O garoto vestia jeans, uma camiseta estampada marrom com vans. Era muito bonito, mas nada se comparava a Joe.
 Joe riu e se levantou da maca, ainda com as roupas brancas do hospital e com um curativo na testa, onde havia levado uma baita pancada.
 — Eu estou bem. — disse ele — Quase nenhum arranhão. O que acha?
 — Acho muito foda. — Jacob deu de ombros.
 — E aí, e o carro?
 — Ah, cara, o seguro vai pagar.
 — O que sua mãe disse?
 — Cara, minha mãe nem veio me ver. — Jacob deu uma risada fraca — Ela só falou comigo no telefone, e o meu pai disse que eu era um homem muito idiota. E minha mãe disse que, graças a mim, eles tinham perdido o carro.
 — Bom, mas se eles não voltaram das férias é porque ta tudo bem. — Joe deu de ombros, como se aquilo fosse o menor dos problemas.
 — Não, está tudo mal! Eu vou pagar com a minha mesada por um ano.
 — Ah, que isso, Jacob, eu estou aqui pra te ajudar. — Joe deu um soco no ombro de Jacob — E então, o que vai fazer?
 — Ah, eu não sei. — ele suspirou — E então, como está o seu pai? Você não falou com ele?
 O sorriso de Joe sumiu por completo.
 — Não. — respondeu ele — Mas garanto que vai me dar a maior bronca.
 — E você está assustado.
 — Pior que sim. — Joe sussurrou.
 — Ah, Joe, sei lá, vai que ele também não paga sua mesada por um ano, vai saber.
 Joe bufou.
 — Não, escuta, essa ele não me perdoa.
 — Tudo bem, de repente ele não quer ver você por 10 anos, e quando ele voltar vai estar velhinho demais pra se lembrar de todas as merdas que nós fizemos. — Jacob deu de ombros.
 Joe riu. Não se aguentou.
 — Que bom que você veio. — Joe passou os braços pelos ombros de Jacob.
 — Você sabe que mora no meu coração.
 — Eu já estava cansado de fingir que estava dormindo pra não falar com a minha mãe...
 Os dois deram risinhos até ouvirem passos no corredor. Ao se virarem, Michael e os seguranças o olhavam feio.
 — Oi, pai. — Joe sussurrou, um medo crescendo em seu peito.

sábado, 26 de abril de 2014

Capítulo 7 - "Shattered"

“É curioso ver como as coisas estão quase sempre invertidas, como são o contrário daquilo que nos dizem que elas são.” — Morte Súbita.

  No gabinete do diretor Ethan, o clima estava bem tenso. Ambos os dois, Ethan e Sophia, pareciam muito desconfortáveis depois de terem um tipo de "reencontro" depois de mais de 10 anos. Sophia parecia nervosa e apertava o forro da cadeira tão forte que seus dedos quase ficavam brancos. E o coração de Ethan não desacelerava, não importa no que ele pensasse.
 Apesar disso tudo, eles decidiram ter uma conversa completamente profissional.
 — Minha filha Demi é hiperativa. — começou Sophia — É um verdadeiro tanque de guerra.
 — Eu vou adorar conhecê-la. — Ethan sorriu, e sorriu de verdade. Ainda não lhe caíra a ficha de que estava vendo Sophia novamente.
 — O único problema é que quando ela mete uma coisa na cabeça, não desiste enquanto não consegue. — ela bufou, se lembrando das inúmeras vezes que Demi fazia aquilo — E está decidida a não ficar nessa escola.
 — Não se preocupe. — ele deu de ombros, ainda sorrindo. Algo dentro dele simplesmente gritava, berrava, ele não conseguia parar de sorrir — Nós vamos ajudá-la a se adaptar. É meu trabalho. Ainda mais nesse caso...
 Ele pareceu olhar para Sophia de cima a baixo, apesar da mulher estar sentada. Mais uma vez, ela se sentiu desconfortável e recomeçou a apertar a cadeira. "Obrigada", falou ela.
 — Quer mais café? — perguntou ele, se levantando e pegando a xícara da mão de Sophia.
 — Eu agradeço, mas não, obrigada. — ela suspirou enquanto via Ethan se virar de costas e postando a xícara em sua mesa.
 Ela se levantou, ainda balançando as mãos, em sinal de nervosismo.
 — A Demi não é má. — ela disse quase em um sussurro — Digamos que seja um pouco intensa. Me entende?
 Ethan riu, voltando a pregar os olhos nos de Sophia.
 — Eu entendo perfeitamente. — ele suspirou — O que você me contou me fez lembrar de uma linda adolescente que conheci uma vez... Uma menina que era fogo puro. — ele falou baixo, e simplesmente começou a se aproximar de Sophia.
 Seu coração batia tão rápido que era impossível captar a que velocidade. Ela não recuou ao ver que Ethan se aproximava.
 — E, mesmo já sendo um homem... — ele sussurrou — Me apaixonei como um adolescente.
 Seus olhos estavam cravados, aquilo era evidente. De repente torrentes de lembranças antigas foram desenterradas com tal brutalidade que Sophia não pode aguentar. De repente ela sentiu, e sentia, tudo que sentiu a 10 anos atrás por Ethan: paixão e raiva.
 — Mas não se apaixonou o suficiente pra largar tudo e... Ir embora com ela. — ela falou em tom firme.
 Aquilo foi como um tapa no diretor. Ele abaixou a cabeça, bufando.
 — Ah... Eu não podia. — ele balançou a cabeça — Eu tinha uma carreira, uma família...
 Ele colocou as mãos nos bolsos da calça social, meio nervoso e com os dedos trêmulos, e caminhou até sua mesa novamente, colocando as mãos em um porta-retrato que tinha a foto de uma garota.
 — Sabia que eu tenho uma filha da idade da sua? — ele falou baixo.
 — É claro que eu sei. — ela revirou os olhos — Eu sumi quando descobri que a sua mulher estava grávida.
 Ethan fechou os olhos.
 — Você não me perdoa, não é?
 — Não. — ela balançou a cabeça, lutando contra uma mágoa antiga louca para sair — Eu não vim aqui criticar nem nada. Pra mim, você é só uma lembrança. Uma linda lembrança.
 — Eu nunca te esqueci. — ele suspira e encara Sophia, se sentando em sua cadeira de diretor — Acompanhei sua carreira pelas revistas... Procurei tudo que podia para saber sobre o pai da sua filha, mas... Nunca soube nada dele.
 Aquilo pareceu pegar Sophia de surpresa.
 — Não se preocupe. — ela ergueu uma sobrancelha — Demi não é sua filha. O pai dela é um homem que vive muito longe, e... A única coisa boa que me deu foi essa princesa. Mas agora quer me separar dela.
 — Como assim? — Ethan juntou as sobrancelhas — Porque?
 — Ele disse que eu não sou boa mãe. — Sophia abaixa a cabeça, baixando o tom de voz — E se Demi não ficar neste colégio, ele vai levá-la com ele para a Europa. Tem que me ajudar que ela fique aqui, por favor! — ela implorava em seu tom de voz, olhando para Ethan com certo desespero.
 — Fique tranquila. — ele pareceu desconcertado, mas com compaixão nos olhos.
 Ethan se levantou e foi até Sophia.
 — Porque ela não vai poder ficar? — ele pegou nas mãos dela.

 — Já disse que você não pode entrar! — Emma estava parada á frente da porta do gabinete do diretor, parecendo proteger o lugar. Demi estava á sua frente, batendo os pés de raiva — Ninguém pode entrar na sala do diretor sem ser anunciado.
 Demi bufou.
 — Deixa que eu me anuncio, muito obrigada, não tenho a vida toda pra esperar!
 Demi avançou para a porta e simplesmente empurrou Emma dali, como se ela fosse uma criança de 12 anos. Emma gritou e tentou agarrar o braço da garota, mas ela já estava dentro da sala do diretor.
 Demi olhou de Ethan para sua mãe dentro da sala. Pareceu nem reparar que Ethan ainda segurava a mão de Sophia.
 De repente, ela riu.
 — Nossa, a julgar pela aparência do diretor, eu acho que ele tem menos tempo do que eu, não é mesmo? — ela deu uma risada irônica — O senhor já não devia estar aposentado?
 — Demi, por favor, filha! — Sophia rangeu os dentes — Ela é minha filha, senhor diretor. — ela deu um sorriso sem graça — Por favor, cumprimente-o, Demi.
 — Oi, como vai? — Demi sorriu e apertou as mãos de Ethan.
 — Esse senhor é o diretor do colégio. — Emma falou perto de Demi, como se fosse para lembrá-la de que ela não estava falando com um simples homem.
 — Ah, eu tenho um cigarro! Você fuma? — Demi tirou um pacote de cigarros do bolso e estendeu para o diretor, que a olhou pasmo.

🎉🌟☀

 Selena se debruçava em sua cama várias vezes, procurando uma posição que lhe parecesse correta e confortável. Não conseguia se estabilizar, sabendo que não sairia daquele lugar. Tentava se distrair com tudo que lhe aparecesse, mas parecia impossível.
 Sua atenção foi tirada das unhas recém-feitas por Emma entrando no quarto, estendendo o telefone.
 — Abri a exceção de vir até aqui só porque é o seu pai, e ele está ligando de Albuquerque, ele disse que você não atende o celular. — disse Emma, lançando um olhar para o celular jogado de Selena em cima da cama.
 Selena lançou um olhar de surpresa para o celular.
 — Ah, olha, ele está desligado. — ela riu, dando de ombros — Eu nem tinha percebido. Mas diz pra ele que eu vou ligar agora mesmo.
 Emma a olhou desconfiada.
 — Atende agora, vai. — ela estendeu mais uma vez o telefone.
 Selena olhou de Emma para o telefone. "Tudo bem", ela murmurou, pegando o telefone. Emma coçou o nariz e se virou para ver o quarto. Nesse momento, Selena não perdeu a oportunidade e apertou no botãozinho para desligar o telefone, tão rápido que Emma nunca teria visto.
 — Alô? — Selena colocou o objeto na orelha, sorrindo — Pai? Como você está, paizinho? ... Puxa, eu estou tão feliz, é sério, não vejo a hora de passar as férias no Vacance Club... É, eu juro. — Selena se levantou, caminhando até as escadas — É sério, não é como as ilhas do Caribe, mas eu vou. Todo mundo que eu gosto está no colégio... Claro, pai. Se divirta bastante e não exagere com o trabalho. Tudo bem. Te amo, pai! — ela mandou beijos pelo telefone — Tchau.
 Emma olhava Selena como se fosse maluca. Todos sabiam que Selena deveria estar odiando o pai agora, por causa de tudo que havia acontecido.
 — Pronto. — ela lhe entregou o telefone, sorrindo.
 — Tudo bem? — perguntou Emma pausadamente.
 — Tudo perfeito. — Selena deu um enorme sorriso — Quando nós vamos pro Vacance Club?
 — Quando os bolsistas terminarem de fazer a prova.
 — Que maravilha! — ela falou rapidamente, terminando de subir as escadas — Estou muito feliz por ir ao Vacance Club!
 Emma achou melhor deixar Selena sozinha com sua loucura e bipolaridade e bateu a porta ao sair.
 Selena encarou a porta, dando um urro de raiva. Ela feliz por ir ao Vacance Club? Nem aqui e nem em outra vida.

🎉🌟☀

 Joe fora mandado imediatamente para um hospital localizado no Queens. O melhor hospital, é claro. O deputado Michael estava posto ao lado do médico, com a sua esposa passando o braço por um dos seus.
 — Doutor, com relação aos jovens que estavam no carro, diga aos familiares deles que eu vou arcar com todas as despesas. — disse Michael — Mas eu quero que mantenham discrição sobre tudo, é lógico.
 — Creio que não haverá nenhum problema, senhor. — falou o doutor, enquanto anotava algo em sua prancheta.
 Michael lançou um olhar de esguelha para sua esposa.
 — Ainda bem. — ele sorriu um pouco. Talvez o máximo que conseguia — Isso é o mais importante.
 — Achei que o mais importante fosse a saúde do seu filho. — o doutor levantou os olhos para lançar um olhar de surpresa — Não querem vê-lo?
 Michael se segurou para não demonstrar desânimo ao ouvir falar em Joe. Sua esposa acariciava seus ombros e seus cabelos ralos, sabendo imediatamente da resposta de Michael.
 — Ér... Não, não. — ele balançou a cabeça — Prefiro esperá-lo aqui. Vai você, meu amor.
 A mulher ao seu lado sorriu e se virou para o doutor.
 — Onde é o quarto dele?
 — Por aqui, senhora, me acompanhe. — ele apontou para um corredor largo e os dois seguiram juntos.

🎉🌟☀

  Parecia que tinham se passado horas desde que o diretor havia saído da sala pra se decidir sobre Demi. Dava pra ouvir as batidas do coração de Sophia naquele momento. Demi ria e brincava com os troféis espalhados por um armário no canto da sala. Ela havia se sentado na grande cadeira do diretor com dois deles.
 — Já chega de brincar, Demi, parece uma criança! — Sophia pegou os troféis da mão de Demi, começando a se irritar.
 — Eu estou cansada! — Demi bufou — Que horas o diretor pretende vir?
 — Eu me pergunto exatamente a mesma coisa! Provavelmente, ele já está com a decisão tomada, mas deve ter medo de me dizer que não aceita você nessa escola.
 Demi deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais insignificante do mundo.
 — Poxa, mas se a escola não me aceita, a culpa não é nossa.
 — Ah, claro! Depois do show que você fez! Porque teve que pegar o cigarro? Você nem fuma, Demi!
 — Ué, sempre tem uma primeira vez, mãe. — ela deu de ombros mais uma vez, revirando os olhos.
 Sophia encarou Demi e se sentou em seguida.
 — Tanto faz. — ela suspirou — Agora as cartas já foram dadas. E eu não tenho mais nenhum trunfo na manga.
 — Ai, para de dramatizar, mãe! — ela subiu na mesa de vidro do diretor e se sentou em borboleta — Olha só, quando o velho descobrir que não me aceitaram nessa escolinha, vai parar de choramingar. A única coisa que ele quer é mostrar que tem poder, é só.
 — Dessa vez não é assim, Demi. Se não aceitarem você aqui, Noah vai reclamar a sua guarda e vão dar pra ele, e vão te separar de mim. — Sophia acariciou o rosto de Demi — Será que você não entendeu, filha?
 Demi olhou dura para a mãe. Pela primeira vez, parecia assimilar algo mais sério do que a si própria. Parecia ver e absorver a importância de tudo aquilo para a mãe.
 — Isso não importa. — ela murmurou — Olha, eu vou deixá-lo louco. Ele não vai me aguentar nem por 3 dias, e vai me devolver. Pronto, mãe.
 — Quem dera se as coisas fossem tão fáceis. — Sophia sussurrou — Não importa por quanto tempo for, ainda assim vai ser longo. Vou perder a sua guarda e não vou recuperar. Talvez isso possa ser bom pra você, não é? Conhecer outras pessoas, uma família... Uma coisa que comigo você nunca teve.
 — Eu não quero ter nenhuma outra família, mãe. — a voz de Demi saiu falha.
 — Agora é tarde, filha.
 Demi a olhou estarrecida. Tarde? Como assim tarde? As coisas seriam assim? Ela simplesmente deixaria sua mãe? E as duas seriam iguais aquelas outras famílias, que só se viam aos finais de semana ou nem isso?
 Não. Demi não conseguia aceitar isso. Ela e Sophia viviam aos berros uma com a outra quase sempre, e ás vezes era um alívio Demi estar sozinha sem a mãe, mas também nunca se imaginou sem ela. Parecia até absurdo pensar em uma coisa dessas.
 Os pensamentos de ambas foram interrompidos pela porta do gabinete sendo aberta. Ethan entrou abotoando o paletó enquanto Demi "acordava" e saía imediatamente de cima da mesa.
 — Bom... — disse ele ao chegar em sua mesa — Eu já tomei a minha decisão.
 — Olha, não importa qual tenha sido sua decisão, está bem? — Demi o encarou, ainda com a voz falha. E odiou que sua voz estivesse daquele jeito — Ainda assim eu quero pedir desculpas, como a minha mãe me ensinou. — ela olhou de esguelha para Sophia — E... Eu nem uso essas porcarias, sabe? Eu só queria escandalizar um pouco. — ela tirou o pacote de cigarros do bolso e os jogou na lixeira ao lado.
 Ethan pareceu desconcertado com a mudança de comportamento da garota.
 — E... Porque queria fazer uma coisa assim?
 — Porque eu não tinha percebido... — ela suspirou — Quanta vontade eu tenho de ficar nesse colégio.
 Ethan assentiu.
 — Não acredito em você, sabia? — ele deu um sorriso duro para Demi — Mas... Acredito que nós dois precisamos de uma oportunidade. Você de conhecer o colégio e o colégio de conhecer você. Bem vinda a Academia Yancy, Demi Lovato.

Capítulo 6 - "No Air"

“Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.” — Tati Bernardi.

   O deputado Michael Collins quase soltava fogo pelas narinas na sala da direção. Não se conformava com o fato da facilidade que Joe tivera para sair da escola, assim, na frente de todos e ninguém percebeu. Ethan praticamente tremia de medo ao ver o rosto raivoso do deputado, temendo de que se não achasse uma solução, ele partiria pra cima dele ali mesmo.
 — Ainda não entendo como ele conseguiu escapar. — disse mais uma vez o diretor, parecendo ter repetido aquilo várias vezes.
 Michael não parava. Andava de um lado a outro na sala, com a carranca ainda mais séria do que o normal. Sua esposa estava sentada em uma das cadeiras á frente da mesa do diretor, fumando seu cigarro, mas ainda com a mesma aparência de preocupação.
 — Eu me pergunto a mesma coisa. — Michael grunhiu — Que tipo de seguranças vocês tem nesse colégio?
 Ethan assentiu, recebendo toda a culpa de bom grado. Ele não seria louco de tentar se impôr ao deputado.
 — Já sei, senhor. — ele murmurou — Estamos fazendo o impossível para encontrá-lo, eu garanto.
 — Se souberem que eu não consigo controlar o meu filho, como vão votar em mim para controlar o país?
 Ethan riu, constrangido.
 — Vamos encontrá-lo, senhor. Estamos ligando pra casa de todos os alunos, dos que saíram do colégio, ele tem que estar em alguma.
 — Procure no céu e na terra. Mas tem uma coisa... — ele se aproximou de Ethan agora falando mais baixo — Com muita discrição. Entendeu?
 Ethan engoliu em seco.

 Selena agora estava completamente sozinha no quarto. Isabella já havia ido e ela parecia andar de um lado a outro no aposento. Ela havia tomado um banho e ajeitado toda a desgraça que havia ficado seu cabelo por causa da nova aluna encrenqueira, a qual esperava nunca mais ver em sua vida. (roupa)
 Havia se passado apenas umas 2 horas após esse terrível fato, e Selena estava sentada em frente do espelho na parte de cima do quarto, ainda ajeitando alguns estragos em seu cabelo. É claro que ele voltara a ficar impecável como sempre, mas Selena era famosa por seus caprichos.
 Ela falava ao celular, ao mesmo tempo em que mexia nos cabelos.
 — Eu juro, Ava, eu nunca vi ninguém assim. — disse ela, se referindo á Demi — E ta na cara que ela não vai poder ficar no colégio, porque aqui não admitem idiotas como essa. — ela bufa — Ninguém merece!
 — Espera aí, ela também é bolsista? — perguntou Ava do outro lado da linha.
 Ava Wilson era uma das melhores amigas de Selena. O trio era inseparável e inabalável: Selena, Isabella e Ava. A garota parecia possuir a mesma história que Isabella, em questão de começo de amizade com Selly. A garota viu como Ava era nova e acanhada na escola e decidiu transformá-la, e não deu outra, Ava era uma das garotas mais desejadas e lindas da Yancy, depois de Selena, é claro.
 Ava era alta e magra, quase escultural. Tinha cabelos pretos muito lisos, que chegavam um pouco abaixo dos ombros. Seus olhos negros e brilhantes eram grandes e chamavam a atenção junto com suas bochechas, sempre rosadas.
 Ava era o oposto de tudo que Selena e Isabella eram. A garota era atirada e festeira, gostava de ter os garotos a seus pés e dava mole pra qualquer um. Gostava de roupas curtas e provocantes e nunca estava sem namorado. Fazia uma listinha de todos que ela pegava em um pequeno caderno, que parecia super confidencial para todas, até para Selena e Isabella.
 A cama vazia no quarto de Selena pertencia a Ava. A garota já tinha ido viajar e passar as férias com a família antes de quase todos, e na sua ausência, o quarto e o colégio pareciam sem vida para Selena, pois ela era a alegria de qualquer grupo.
 — Não, Ava, não é isso. — Selena suspirou, se levantando da mesinha que continha o espelho e começando a descer as escadas — Olha só, você é bolsista e eu amo muito você. O problema é que essa menina... Ah, não sei, essa menina é ignorante. Mas tudo bem, não vamos mais falar dela porque eu estou ficando enjoada. Agora me fala de você, como está tudo na sua casa? — ela sorriu e se jogou em sua cama.
 Ava suspirou.
 — Como sempre, uma chatice. Selena, vem cá, quando você vai viajar?
 Selena baixou os olhos, de repente sentiu um aperto no peito e a mágoa novamente chegando. Queria eliminar aquele assunto de sua mente.
 — Não, eu não vou mais. — ela revirou os olhos, se lembrando das palavras do pai — Eu tive uma discussão com o meu ex-pai e ele cancelou a viajem. Não tem jeito, vou ficar as férias inteiras aqui. — ela deu um grande suspiro, em seguida levantou a cabeça e sorriu — Ah não, eu juro que não me importo... É, a Isabella acabou de ir embora... Mas está tudo bem, amiga...
 O telefone piscou e deu um barulhinho. Selena pareceu quase saltar de susto.
 — Espera, tem outra ligação. — ela atendeu a outra chamada — Alô?
 — Alô, Selena. — ela imediatamente reconheceu a voz do pai — Selena, sou eu...
 Selena apertou o botão para encerrar a chamada imediatamente.
 — Desculpe, Ava. — ela continuou, bufando — Alguém ligou errado. Só Deus sabe pra onde. Mas enfim, amiga, eu tenho que desligar... — ela suspirou — É, eu juro pela minha última calça Armani que eu estou bem, eu estou bem! Tchau.
 Selena desligou o iPhone, o jogando de qualquer jeito na cama. Sozinha novamente, pensou ela, sentindo uma depressão horrível.  Chega! Calminha, Selena. Não importa se você está sozinha, ok? Não tem que se importar, está tudo bem. Está tudo bem..., pensou ela e se sentou na cama, com o rosto entre as mãos.
 A porta se abriu repentinamente antes que Selena pudesse começar a chorar de raiva. Lá estava Emma, com seu cabelo preso e óculos enormes.
 — Perdão, Selena. Com licença. — ela entrou no quarto.
 — Emma, muito obrigada, mas é sério, não precisa me pedir desculpas, ta tudo bem, de verdade, eu não me importo. — Selena falou rápido, fazendo Emma a olhar como sempre olhou: uma louca histérica.
 Emma apenas levantou as sobrancelhas e se virou a porta, sem dizer nada.
 — Demi? — ela chamou.
 Demi surgiu na porta, o que fez Selena quase ter um surto.
 — Ah, não! Pode ir tirando essa daí do meu quarto, porque só de olhar pra ela eu fico enjoada, por favor! — gritou Selena, parecendo um tanto apavorada.
 Emma suspirou.
 — Demi vai ficar aqui enquanto a mãe dela fala com o diretor.
 — Mas porque aqui?! — Selena choramingou.
 Emma ajeitou os óculos em cima do nariz, e encarou Selena.
 — Porque este vai ser o quarto dela, caso seja aceita. — ela deu um sorriso triunfante.
 Selena pareceu ter levado um banho de água fria.
 — Bom, com licença. — falou Emma mais uma vez, caminhando até a porta — Demi, pode entrar.
 — Espera, espera! — gritou Selena, mas a secretária já havia ido.
 Demi olhou para todos os lados antes de pisar no dormitório. Seu estômago revirou só de olhar o tanto de enfeites que o cobriam, fazendo-o parecer realmente um quarto de meninas mimadinhas. Aquele era mesmo um quarto com cara de Selena.
 Selena encarou a garota enquanto ela entrava, sua expressão era de pura raiva.
 — Olha aqui, eu já vou avisando: nem pense em ficar nesse colégio, porque é outro mundo, você não tem lugar aqui. — ela grunhiu.
 Demi a olhou entediada e se jogou na cama de Isabella, que ficava na frente de Selena.
 — Calma, ok? — ela sussurrou calmamente — Eu não quero ficar nesse internato de merda. Deixa eu só falar com o diretor e eu te garanto que não vai nem aceitar a minha inscrição.
 O alívio tomou conta de Selena, pelo menos por um tempo.
 — É o que eu espero.

 Na Flórida, a sra. Jonas empacotava as últimas coisas antes de se mudar de vez daquela velha casa que tinham. A filha mais nova estava em seu antigo quarto, guardando tudo que era possível guardar da velha casa para não se desprender tanto assim das lembranças. Ela sabia que não ia ser fácil.
 Chegou a hora de ir ao quarto de Nick. Ao acordar áquela manhã, ela ainda não havia visto o filho, mas não estranhou. Desde a morte do pai, Nick tinha uns surtos de sair de casa antes do sol nascer para afogar algumas mágoas. Mas naquele dia foi diferente.
 Ela pegou mais uma caixa de papelão e entrou no quarto. Ele estava intacto e arrumado. A cama estava completamente impecável, como se ninguém tivesse a tocado. Estranho. Nick nunca arrumava sua cama.
 A sra. Jonas tirou isso da cabeça. Deveria querer fazer um agrado, pensou ela. Colocou a caixa em cima da cama, se preparando para pegar as outras coisas quando viu algo em cima do travesseiro do filho. Era uma carta.
 Ela juntou as sobrancelhas, mas se apressou em pegar o papel. "Pra minha mãe e pra minha baixinha", dizia na frente. De repente, ela teve um aperto no coração. Não podia ser aquilo. Tudo menos aquilo. Ela abriu a carta.
 "Mãe, baixinha... Espero que possam me perdoar por sumir assim de repente, mas eu queria evitar uma nova discussão."
 Ela parou de ler, com as mãos trêmulas. E de repente ela já entendera tudo, já sabia.

 Emma abriu a porta do gabinete do diretor, o encontrando vazio. Ela suspirou e entrou, com Sophia atrás dela.
 — Sente-se, por favor. — pediu ela, apontando para a poltrona no fundo da sala — Ah, eu já ia chamá-la de Sophia. É que eu estou acostumada a vê-la na TV, nas revistas...
 Emma deu um sorriso constrangido. Aquilo não era normal pra ela, como também não era normal receber artistas de grande porte na escola.
 — Claro... — Sophia deu um sorriso simpático enquanto se sentava.
 — Eu sinto como se já a conhecesse.
 — Não se preocupe, pode me chamar de Sophia. Está tudo bem.
 Emma deu mais um sorriso sem graça e se encaminhou para a mesa do diretor.
 — Eu te servir um café, ok? — ela já pegava as xícaras — Sem açúcar, não é?
 — Isso, sem açúcar. — concordou Sophia — Eu tenho que cuidar, não é?
 Emma levou apenas instantes para estar entregando uma das xícaras nas mãos de Sophia.
 — Aqui está. — ela sorriu mais uma vez — Dentro de uns minutinhos o senhor Ethan virá recebê-la.
 — Obrigada, você é muito gentil.
 — Eu vou estar aqui fora, qualquer coisa.
 Emma desapareceu para fora da sala. Sophia mexia lentamente em seu café, suspirando. Torcia mentalmente para que Demi entrasse, aquilo não era uma causa boba. Se ela não entrasse, Sophia podia nunca mais vê-la, e isso a apavorava.
 Alguns passos ecoaram no corredor e a porta se abriu, entrando o diretor.
 — Desculpe a demora... — falou o diretor enquanto entrava e ia imediatamente para sua mesa, sem nem olhar para quem estava sentado na poltrona — Estava me despedindo de alguns pais de alunos, e...
 Ethan se virou e congelou. Um tremor percorreu a espinha de Sophia, e ela se levantou, quase jogando a xícara de café no chão, tanto que suas mãos tremeram.
 — Você?! — ela disse, com a voz falha.

 Nick chegou ao aeroporto a tempo de carona com alguns amigos. Ele olhava para o relógio com grande insistência, como se tivesse medo de alguém o perseguir e estragar completamente com seus planos de ir á Nova York. Ele entrou no estabelecimento com mais 3 amigos.
 A bagagem de Nick não era grande coisa. Na verdade, ele não levava quase nada. Estava com a roupa do corpo — uma blusa preta de botões de mangas compridas, as quais ele dobrou até os cotovelos, um jeans igualmente preto largos e tênis — e uma mochila grande, onde carregava algumas roupas, e alguns itens necessários.
 Os 3 amigos não estavam muito felizes com a partida de Nick.
 — Ah, qual é, não fiquem com essas caras. — Nick parou abruptamente, se virando para eles — Eu não vou embora pra sempre.
 Um deles, que era alto e meio gordinho, com cabelos claros e olhos azuis, falou:
 — Não deve ser fácil se vingar de alguém tão poderoso como esse velho.
 Nick revirou os olhos, como se já tivesse explicado aquela história mil vezes á eles.
 — Sabe de uma coisa? — ele cerrou os olhos — Vou atingir aonde mais dói nele.
 Um outro cara, que era meio baixinho e tinha cabelos cacheados, olhou pra Nick como se este fosse meio louco.
 — Espera, mas como você vai fazer isso?
 Nick parou por um instante, parecendo tentar se lembrar de algo.
 — Ele tem uma filha. — falou baixo.
 — E como vai fazer pra se aproximar dela? — perguntou o do olhos claros.
 — O mais provável é que a menina nem te dê moral. — o do cabelos cacheados riu.
 Nick deu de ombros.
 — E porque não vai dar bola pra um colega de colégio? — falou ele.
 Todos pareceram sem palavras por um momento, parecendo absorver a informação.
 — E como vocês vão se relacionar no colégio? — perguntou um deles.
 — Olha, eu andei pesquisando em tudo quanto é lugar e já investiguei a escola onde estuda essa mimadinha milionária. — ele disse com certo tom de nojo.
 — E o que você vai fazer? Vai pedir um trabalho de porteiro, de faxineiro? — perguntou o de cabelos cacheados, rindo mais uma vez.
 Nick riu e deu um soco de leve no ombro do garoto.
 — Não, cara! Eu pedi uma bolsa pra estudar no mesmo ano que essa menina.
 — Ta maluco, Nick? — o de olhos claros pareceu chocado — Vai voltar pro segundo grau?
 — Vai logo. — disse o garoto do meio pela primeira vez, um garoto forte com a pele morena e cabelos escuros e repicados — Você vai perder o avião.
 Nick o olhou com firmeza.
 — Não vou te decepcionar. — ele sussurrou.
 O garoto sorriu.
 — Tenho certeza que não.
 Nick suspirou. De repente ele ganhou uma nova expressão, pela primeira vez se mostrava muito triste por ter de deixar a Flórida.
 — Olha... Eu sei que eu nem preciso dizer isso a vocês, mas minha mãe e minha irmã não podem saber por nenhum motivo que eu estou indo a Nova York vingar a morte do meu pai.
 — Ah, não se preocupe. A galera aqui e eu vamos cuidar dela e da sua irmãzinha também.
 — É, cara, pode ir tranquilo. — o garoto do olhos claros sorriu.
 Nick os olhou cheio de gratidão e já estava com saudades. Eles se abraçaram e murmuram um último "Boa sorte" a Nick e foram embora, deixando o garoto ainda mais perdido.
 Nick podia estar se sentindo perdido, mas nunca esteve tão determinado em toda sua vida. Ele tinha um objetivo, um foco, que ele mal sabia por onde começar, mas sabia que tinha que tentar. Essa dor não podia durar mais, ele tinha que ter um alívio.
 Nick se encaminhou para fora para pegar o avião que já estava saindo, quando ouviu uma voz que o congelou inteiro por dentro:
 — Nick!
 Ele se virou a tempo de ver sua mãe correndo entre as pessoas do aeroporto, segurando a mão da pequena.
 Nick não sabia o que fazer. Ele simplesmente ficou imóvel enquanto sua mãe se aproximava correndo.
 A sra. Jonas se aproximou do filho, o que fez Nick ficar preocupado. Ah, ela não vai me impedir de ir, pensou Nick. Nada o impediria, ele já deixara aquilo bem claro.
 Ela sorriu, já com os olhos marejados.
 — Você tem que me prometer duas coisas. — ela disse, quase em um sussurro, com a voz embargada e abafada — Que você vai se cuidar muito, e que não vai cometer nenhuma estupidez.
 Nick foi pego de surpresa. Ele esperava que ela gritasse e o arrastasse para casa, louca de raiva por ele ter fugido. Mas não. Isso mostrava nos olhos da sra. Jonas: ela sabia exatamente como seu filho havia crescido, e que ele sabia se cuidar.
 — Eu prometo, mãe. — falou ele, dando um sorriso.
 — E por favor, mantenha contato. — ela balançou a cabeça, as lágrimas não contidas.
 Nick assentiu, pegando nas mãos dela.
 — Vou sentir sua falta. — falou a garotinha, ainda agarrada á mão da mãe.
 Nick se agachou até ficar na altura da irmã.
 — Eu também, baixinha. Sabe de uma coisa? Vou levar você sempre perto do meu coração. — ele sorriu, e a menina lhe deu um beijo carinhoso na testa.
 — Nick, lembre-se do que seu pai sempre exigiu: que você fosse feliz. — a sra. Jonas acariciou o rosto do filho.
 — É por isso que eu vou, mãe. — ele suspirou.
 — Você vai escrever pra gente? — perguntou a menininha.
 — Eu vou escrever muitas cartas! E mandar e-mails também. E você vai ler. Ok?
 A garotinha bateu palmas, excitada com a possibilidade de ler todas as cartas e e-mails. Nick deu um beijo na testa da menina, a saudade já começando a fluir.
 — Nick, eu sei que você vai dar bem, porque você sabe se virar sozinho. Mas também sei que o seu pai vai estar sempre com você, com essa corrente... — ela aponta para o cordão de prata no pescoço de Nick.
 Nick baixou os olhos para ver a corrente. Com certeza, aquilo já se tornava um símbolo sagrado pra ele, aquilo era a lembrança mais vívida do pai. Podia sentir que ele estava ali ao seu lado, lhe dando força e confiança para seguir em frente.
 Nick ouviu as últimas chamadas pro seu voô. Ele rapidamente deu um último abraço na mãe e na menina, pegou sua mochila e deu as costas, se obrigando a não olhar pra trás, para a família que estava deixando na Flórida.

Capítulo 5 - "Amazed"

“Se você gosta do seu café quente. Me deixe ser a sua cafeteira.” — Arctic Monkeys.

   Joe e Jacob continuavam em sua farra particular na casa do amigo. A essa altura, que já era noite, a casa já estava uma bagunça e a grama estava infestada de cervejas e cigarros. Os garotos estavam curtindo e não queriam saber de mais nada.
 Até o telefone tocar.
 Joe se levantou da grama num salto.
 — O telefone está tocando. — ele disse pra Jacob, meio apavorado, mas nem tanto, agora que estava um pouco bêbado.
 — Telefone? — Jacob parecia tentar se lembrar o que era aquilo.
 — É... — Joe vasculhava a bagunça rapidamente. O telefone havia sumido, mas podiam ouvir seus toques.
 — Onde está?
 Joe rolou os olhos pelo gramado. No meio dos escombros de algumas latas de cerveja, estava o telefone.
 — Ali! — ele o pegou, entregando a Jacob.
 O garoto bufou.
 — Só vou atender porque pode ser da escola. — ele pegou mais uma vez o guardanapo, colocando na entrada de som, fazendo sua voz grossa e diferente — Alô, boa noite.
 O garoto deu uma pausa. Em seguida, ele tirou o guardanapo do telefone e falou com sua voz normal, parecendo um tanto aliviado.
 — Ah, oi, ele não está. — ele olhou pra Joe, que não entendia nada — Ele saiu a uns dois dias, quem fala? — ele deu uma pausa e tampou a entrada de som com a mão, se virando para Joe, sussurrando — É uma tal de Olívia Miller, amiga do meu irmão!
 Os olhos dos garotos brilharam. Parecia que estava escrito na testa de Jacob: "Uau, atenção! Mulheres mais velhas!"
 Jacob colocou o telefone no viva-voz.
 — Ah, eu queria ir com ele ao Café Loud, que vai ser inaugurado hoje a tarde. — falou a garota.
 Joe rapidamente pegou o telefone.
 — Não importa, Olívia. O Alexander não está, mas eu estou.
 — E quem é você?
 — Um amigo dele. Mas agora eu estou com outro amigo. — ele olhou para Jacob, sorrindo — Que tal pegarmos você e irmos os quatro? Você tem uma amiga?
 Jacob deu um sorriso malicioso.
 — Tenho, mas... Como vamos reconhecer vocês? — perguntou ela.
 — Ah, nos reconhecer vai ser fácil. Somos os mais bonitos, estamos na moda... E, além disso, temos um carrão. — ele percebeu o olhar confuso de Jacob — E aí?
 — Ér... Pode ser. — Olívia riu do outro lado da linha.
 — Perfeito. Então a gente se vê mais tarde. — ele desligou o telefone.
 Jacob deu um urro. Ele deu um soco no ombro de Joe, sorrindo abobado.
 — Cara, vamos nos dar muito bem! — ele sorriu — Mas espera aí, como nós vamos transformar um táxi num carrão?
 Joe olhou pro amigo como se ele fosse de outro planeta.
 — Jacob, deixa de ser burro, vamos com o carro da sua mãe. — ele deu de ombros, como se o Sr. Óbvio.
 O sorriso de Jacob desapareceu.
 — Não, espera aí, cara, nada disso! — ele repreendeu Joe — Você sabe que eu te apoio em tudo, mas sair com o carro da minha mãe não, ela não vai gostar.
 Joe revirou os olhos.
 — Ninguém vai ficar sabendo...
 — Joe...
 — Vai dar tudo certo! — ele segurou os ombros de Jacob — Eles estão a mais de 500 km daqui.
 A expressão do garoto pareceu não mudar. Aquela ideia o apavorou mais do que tudo.
 — Você avisou os seus pais que eu iria ficar na sua casa, não é?
 — Não, isso não importa. Olha, com todos os amigos que chegam com o meu irmão, meus pais nunca sabem quem está ou quem não está. — ele deu de ombros — Mas tudo bem, você ligou pros seus pais, cara?
 Joe balançou a cabeça.
 — Não. — ele suspirou — Mas depois eu ligo. Vamos nessa? — ele apontou pra piscina.
 Jacob sorriu e tirou a camisa. Os dois pularam de ponta na piscina.

 Isabella e Selena estavam novamente no quarto juntas. Depois de Jayden sair, Selena viu o território livre pra chorar e espernear a vontade. Apesar de ela reconhecer que seu choro não mudaria nada, ela ainda assim estava muito chateada. Contou pra Isabella o que havia acontecido, e a garota também ficara um pouco ressentida com a amiga. Afinal, seriam as primeiras férias que ela passaria com o pai depois de anos.
 Agora as duas estavam na parte de cima do quarto. Selena estava sentada em frente ao espelho largo, passando máscaras no rosto e mais maquiagem para disfarçar que havia chorado. Isabella estava com as mãos no corrimão, olhando pra baixo. Olhando pra porta. Parecia estar contando os segundos pra que alguém entrasse.
 — O que foi, Isabella? — Selena perguntou ao ver a amiga perdida em pensamentos.
 Isabella pareceu "acordar".
 — Nada. — respondeu ela — Mas é que... Eu não gosto de deixar você sozinha. — ela suspirou — A Ava já foi e...
 — Não, a Ava vai ficar fora pouco tempo. — Selena se levantou, indo se colocar ao lado de Isabella — Além disso, não vou ficar sozinha, vou ficar com todo o pessoal do Club de Vacaciones. — ela deu um sorriso.
 Isabella a olhou espantada.
 — Ah, amiga! Os perdedores! — ela diz com certo tom de nojo.
 Selena suspirou.
 — Eu sei. — disse ela, indo até o alto da escada e começando a descê-la para a parte de baixo — Mas lembre-se que eu gosto de transformar as pessoas. Eu gosto que um menino ou uma menina que seja de um jeito, de repente se transforme em alguém como você ou como eu. — ela sorriu — E tem mais, sabe o que eu pensei? Que nessas férias eu vou andar muito com as alunas novas, porque eu vou transformá-la no meu mais novo projeto, e isso leva muito tempo. — ela se virou para olhar Isabella quando já estava na frente de sua cama — Não é?
 Isabella apenas olhava a amiga. Aquele sorriso, aquela animação... Nada daquilo era de verdade. Isabella suspirou, cruzando os braços.
 — Selena, você não me engana. Você acha tudo isso muito legal, mas eu sei que você ta super mal por causa do seu pai.
 Selena encarou Isabella com certo tom de raiva por apenas ter tocado naquele assunto, que já havia lacrado como proibido.
 — Qual pai? — ela trincou os dentes — Eu não tenho nenhum pai.
 Ela se virou para sua mesinha onde havia a foto de Jayden e a abaixou com força.
 — Escuta, Isabella, eu sou uma menina órfã. O que você acha? — ela bufou — Agora vai embora porque estão te esperando. — ela virou a cara e se sentou na cama.
 Isabella olhou para Selena com certa compaixão e graça. Ela sabia fazer seus dramas naquele tipo de ocasião, e isso fazia ser quem ela era. Isabella se sentou ao lado de Selena.
 — Selena, sabe... Eu fui o seu melhor projeto. — ela disse, olhando nos olhos de Selena, enquanto sorria — Eu não existia. Graças a você, todo mundo me conhece. Eu nunca vou ter como te agradecer por isso.
 Selena corou e baixou os olhos, abrindo um sorriso. Mas esse era sincero. Isabella era sua melhor amiga, ela sempre faria de tudo por ela, não importava o que fosse.
 Isabella não era ninguém quando chegou á Yancy. Era discriminada por ser gorda e invisível, e ainda não sabia se vestir. Selena viu ali uma chance pra transformar a garota, mas também viu uma chance de serem amigas. E não deu outra. A amizade das duas era tão forte que os que a percebiam, chegavam a ter inveja.
 — Sabe o que você tem que fazer agora? — Selena falou, mexendo nos cabelos de Isabella — A dieta, mocinha! — as duas riram, pondo-se de pé — Agora vem cá, temos que conversar muito sério! O assunto é aquele, chocolate excessivo.
 — O que? — Isabella pareceu confusa.
 Selena bufou.
 — Sem chocolate, falou? — ela ergueu uma sobrancelha — Agora vai, amiga. E faça uma dieta.
 Isabella riu e se virou para pegar sua mala, já pronta em cima da cama.
 — Ah, e não se vista como uma idiota, pelo amor de Deus! — falou Selena mais uma vez — Agora vamos. Postura, encolha a barriga, desse jeito...
 Selena colocou os braços nos ombros de Isabella enquanto as duas se retiravam do quarto.

 Um carro completamente explêndido e incrível acabava de estacionar á frente dos portões da Yancy. Parecia mais uma limusine, de tão enorme e alto, tanto que vários rostos se viraram para espiar. Naquele momento, haviam muitos carros ali parados e algumas pessoas, a maioria alunos, que se despediam para irem a suas férias de verão.
 Uma mulher, igualmente esbelta, saltou do carro. Ela vestia um vestido preto com sua parte da saia cinza, com um laço preto arrumado. Seus saltos eram enormes e bem caros, e usava um óculos de sol que caía bem em seus cabelos curtos e loiros, seus cachos bem feitos áquela tarde. Era Sophia Jones.
 Ela estava parada á frente da porta do carro ainda aberta, olhando pra dentro com uma expressão impaciente.
 — Vamos, Demi. — disse ela, bufando — Desce de uma vez, filha. Anda!
 Demi a olhou com raiva e desceu do carro a passadas fortes. A garota parecia diferente. Seus cabelos pretos esvoaçantes estavam em cachos muito soltos e ela havia colocado uma lente vermelha. (roupa de Demi) Usava uma bota preta que quase chegava a seus joelhos e na mão estava sua inseparável lata de red bull.
 Sophia a olhou com desaprovação.
 — Justo hoje tinha que aparecer assim, não é, minha filha? — ela suspirou — Não é uma boa imagem pra um colégio.
 Demi deu de ombros.
 — O velho decrépito paga a conta, então... Perfeito, vão ter que me aceitar como sou, se não eu vou embora feliz da vida. — ela tomou um gole da bebida, se sentindo completamente satisfeita.
 Sophia juntou as mãos, parecendo fazer um pedido.
 — Por favor, Demi, faça um esforço. — falou ela — Pelo menos uma vez na sua vida, tem que fazer alguma coisa que não quer.
 — Ok, mas olhe o que eu tenho que fazer! — ela olhou com nojo para os lados — Por favor, mãe, isso parece um jardim de infância. Olha só, tem bebê. Parece que eu vim desfilar de lancheira, isso sim.
 Sophia pareceu confusa e espantada.
 — Mas... Eles tem a mesma idade que você, Demi. — ela disse como se fosse óbvio, e que não fazia o menor sentido as palavras de Demi.
 A garota gargalhou.
 — Haha, física, e não mental. Eu estou a anos-luz deles.
 — Demi, são só dois anos, está bem? — Sophia suspirou — Quando se formar, eu pago uma viagem pelo mundo. Mas agora comporte-se bem, por favor.
 Demi ficou calada, tomando mais goles de sua bebida, como se aquilo a acalmasse. Sophia levantou a mão para acariciar os cabelos de Demi.
 — Demi, eu morro se me separam de você, filha. Eu te amo. — ela disse em tom doce.
 Demi imediatamente se esquivou do toque da mãe, como se aquilo fosse muito errado.
 — Mãe, porque não joga gasolina em mim e acende um fósforo? — irônica, ela trincou os dentes, agora olhando para os lados com preocupação — Se quer me queimar, não precisa me abraçar na frente de toda essa gente, fala sério!
 Sophia tirou os óculos, avaliando Demi com tristeza. Aquela não era a única vez que a filha a esnobava daquele jeito, mas mesmo assim, não era bom.
 — Demi, é que eu... Eu só quero te fazer um carinho, filha. — ela voltou a tentar passar as mãos nos cabelos de Demi, mas a garota se esquivou novamente.
 — Mãe, não faz drama, ok? — ela se aproximou de Sophia, falando mais baixo — Ninguém vai nos separar.

 — Ah, você já viu a aluna nova? — perguntou Selena, apontando na direção de Demi.
 Selena e Isabella já haviam chegado na entrada do colégio, onde esperavam pacientemente a família de Isabella chegar pra buscá-la. Claro que estavam reparando em todos que chegavam, inclusive Selena não parava de olhar para os lados procurando carne nova no pedaço.
 — Tadinha. — Selena disse com um tom de pena — Ela é daquelas que acordam e colocam a primeira roupa que encontram.
 Isabella torceu o nariz, também não parava de encarar Demi.
 — Que horror, não é? — falou ela, com um tom mais para o nojo.
 — Não, Isabella, não é um horror. — Selena agora esboçava um sorriso — Porque assim eu tenho alguma pra fazer. Só que eu acho que eu vou levar o verão inteiro pra transformar essa coitadinha, porque essa é uma missão muito complicada. — ela balançou a cabeça, parecendo já planejar os primeiros passos.
 Isabella parecia não concordar com Selena. Olhava para Demi como se a mesma fosse uma aberração.
 — Você quer dizer missão impossível, não é? — ela murmurou.
 — Não, não. — Selena riu — Pra Selena Gomez, nada é impossível, querida! Vamos.
 Selena pegou na mão de Isabella, e sem mais delongas, as duas já estavam se aproximando de Demi e Sophia, que continuam conversando - ou discutindo - na frente da limusine branca enorme.
 Não pareceram perceber isso, pois quando chegaram até elas, as duas estavam em silêncio.
 — Olá. — cumprimentou Selena com um sorriso simpático, estendendo a mão — Eu sou Selena Gomez. E você?
 Por um minuto, Demi se assustou com Selena aparecendo do nada, parecendo que havia brotado do chão. Olhou para a menina com a mesma carranca de sempre e revirou os olhos, bebendo mais um gole longo da bebida, ignorando completamente a mão estendida de Selena.
 Sophia pareceu corar diante dessa atitude de Demi. Rapidamente, ela agarrou a mão estendida de Selena, vendo que Demi não estava afim.
 — Oi, eu sou Sophia Jones. — falou ela, em um sorriso amigável — Essa é a minha filha Demi. Cumprimente essas meninas lindas, Demi, por favor. — pediu Sophia, entredentes, parecendo suplicar para que Demi fosse um pouco legal.
 Demi olhou para as garotas. Em seguida, deu um sorriso tão forçado que era melhor que nem tivesse sorriso.
 — E aí. — ela disse, e voltou sua atenção para todos os lados.
 Selena não sabia o que dizer. Não era aquilo que ela estava esperando. Nunca havia topado com tal pessoa em toda sua vida, e com certeza não tinha se agradado daquilo. De repente ela estava tremendamente arrependida de ter deixado seu lugar para ir ser simpática com uma troglodita desconhecida.
 — Fica aí conversando com elas que eu vou ver o diretor, ok? — falou Sophia após alguns minutos de silêncio entre as garotas, enquanto Demi continuava olhando para o chão ou para sua latinha, e Selena revia vários jeitos para sair dali sem ser mal educada — Com licença.
 Sophia se retirou para dentro do colégio e Selena parecia meio encurralada. Isabella não dissera uma palavra até agora, parecia horrorizada demais com a situação.
 Finalmente, Selena falou.
 — Olha, me desculpe, mas... Eu não sei, eu acho que a sua mãe não gosta muito de você. — ela murmurou, olhando novamente para Demi dos pés a cabeça com uma expressão ruim — Ela só compra essas roupas feias pra você, não é?
 Demi arqueou uma sobrancelha, como se estivesse surpresa e ao mesmo tempo estava achando graça daquilo.
 — Mas não se preocupe, eu entendo muito de moda. — Selena agora esboçava um sorriso vibrante — Então hoje vamos fazer um ritual. Vamos fazer uma fogueira e queimar todas as roupas feias que você trouxe, e eu tenho roupas novas incríveis, e eu posso te emprestar, assim como eu faço com as outras meninas, é legal.
 Demi assentiu, concordando. Algo dentro dela se segurava ao máximo para não cair na risada.
 — Olha, eu acho que primeiro temos que levá-la ao salão de beleza, porque ela precisa mudar esse visual. — Isabella falou pela primeira vez, olhando principalmente para os cabelos negros de Demi e suas horríveis lentes vermelhas, que tornavam a imagem da garota um tanto bizarra.
 — É, tem razão. — concordou Selena.
 Demi ficou séria, após ter rido muito por dentro. Agora ela já entendia tudo. Já não queria ir parar num ambiente como aquele, se todas as pessoas fossem do jeito que aquelas duas garotas completamente estúpidas á sua frente estavam sendo, ela já queria sair correndo dali imediatamente.
 Ela se aproximou das duas garotas, dando um sorriso sarcástico.
 — Não tanto quanto vocês duas precisam de uma mudança de cérebro. — ela piscou.
 Em seguida, aconteceu algo muito rápido. Demi literalmente enfiou sua latinha de red bull no meio dos seios de Isabella, que com o peso a mais que a garota tinha, quase pulavam pra fora de sua blusa marrom. Isabella deu um berro estridente, chamando a atenção de todos os alunos que se encontravam ali, que começaram a acompanhar a cena.
 — O que é isso! Ta gelado, sua idiota! — gritou Isabella, tirando a lata de seus seios, parecendo com muita raiva.
 Selena parecia chocada.
 — Espera aí, qual é o seu problema? — ela disse, olhando pra Demi.
 — Ué, foi a coisa mais parecida com uma lata de lixo que eu encontrei. Redonda e marrom. — Demi deu de ombros, como se ela não tivesse feito absolutamente nada.
 Isabella arregalou os olhos.
 — Você é uma estúpida! — gritou mais uma vez, agora realmente com raiva.
 Os risos dos alunos em volta eram altos, agora todos acompanhavam a recente discussão entre as meninas.
 — Espera, você não vai falar assim com a minha amiga. — Selena se colocou na frente Isabella, agora começando a sentir uma raiva semelhante.
 Demi levantou as sobrancelhas, como se aquilo fosse um saboroso desafio pra ela.
 — Fica calma, menina, também tem pra você. — ela sorriu e pegou a lata da mão de Isabella.
 Em seguida, Demi virou o líquida da lata no cabelo de Selena. Um choque tremendo pareceu se passar entre os alunos, assim como as risadas, dessa vez mais altas. Selena berrou com urgência. Aquilo nunca a havia acontecido antes, em momento nenhum.
 Selena estava com tanta raiva que seria capaz de explodir. Demi ria ás gargalhadas enquanto ela estava com seu cabelo colando molhado com energético.
 — O que está pensando?! — Selena gritou, tamanha era sua raiva.
 — Tchauzinho, queridas! Foi um prazer conhecer vocês!
 Demi mandou beijinhos no ar para Selena e Isabella e desapareceu para dentro da escola.

 Uma música alta eclodia de dentro do carro onde Joe e Jacob estavam. (a música) Os garotos dirigiam pelas ruas pequenas de Salinas, rindo sem parar de várias histórias que eles faziam questão de relembrar. Não foi difícil achar o Café Loud, não era uma cidade assim tão grande. Era um estabelecimento pequeno com dois andares, onde tinha uma placa enorme indicando o lugar. Haviam mesas do lado de fora e várias do lado de dentro, onde garçons andavam sem parar de um lado pro outro, o que significava que o movimento estava bom.
 Joe estacionou bem na frente do Café, e rapidamente olhou pra cima, onde haviam apenas duas garotas sentadas em uma mesa pequena do lado de fora, olhando pra baixo.
 — Devem ser aquelas ali. — apontou Joe.
 Uma das garotas era alta e magra. Tinha um cabelo curtinho, mal chegando aos ombros, muito loiros, cortados em estilo chanel. (roupa da garota) Seus olhos eram castanhos e ela pareceu reconhecer Joe assim que o carro estacionou. A outra garota tinha os cabelos castanhos avermelhados e encaracolados, e tinha um sorriso gracioso, com algumas pouquíssimas sardas pelo rosto. (roupa)
 Na mesa das duas, haviam cervejas e as duas fumavam cigarros. Pareciam duas mulheres de 30 anos.
 — Cara, elas são mais velhas do que a gente. — comentou Jacob após estacionarem.
 — Tranquilo, cara. — Joe riu — É melhor que sejam mais velhas, não é?
 Jacob riu e concordou. Joe abriu o teto solar do carro, e os dois puseram as cabeças pra fora. As garotas eram realmente lindas.
 — Olívia! — chamou Joe — Sou eu. Joe.
 A loira sorriu pra ele.
 — Olá, Joe. — ela acenou — Vem até aqui, não quer subir?
 — Não, não, vamos dar uma volta enquanto está meio vazio. Depois a gente volta. — Joe deu de ombros, sorrindo — O que acha? Vem.
 As garotas riram.
 — Eles são muito novinhos. — cochichou a garota do cabelo cacheado para Olívia. A garota apenas assentiu e riu mais um pouco — Olha, ele tem um carro lindo, mas eu acho que não.
 — O que foi? — perguntou Joe — Está com medo?
 Joe sorriu malicioso, fazendo Olívia rir ás gargalhadas. Mas olhou pra ele com mais interesse.
 — Eu não tenho medo. — respondeu ela — Meu ex namorado sempre me levava ás corridas.
 Joe bufou.
 — O que está esperando?
 As garotas se olharam e, em seguida, desceram.

 Mal haviam se passado duas horas e todos já estavam completamente bêbados no carro. Pelo visto, o fato de Joe e Jacob serem novinhos demais não afetou em nada para Olívia e sua amiga, já que Joe trocava algumas carícias quentes com Olívia enquanto Jacob enfiava a língua na boca da outra garota. Em certos momentos, os garotos revezavam para ver quem dirigia. Após algumas voltas por lugares da cidade que nunca tinham visto, Joe passou o volante para Jacob e ele e Olívia foram pra trás do carro, onde se engoliam ferozmente e Joe fez questão de tirar o vestido da garota. Jacob e a outra pareciam não perceber, ou não estavam nem aí pra isso.
 Joe deitou a garota no banco do carro e retirou sua camisa de botões, fazendo Olívia apreciar seu físico. Ele retirou-lhe o vestido, e a garota parecia suplicar para que ele continuasse. A garota mesmo retirou sua calcinha, vendo que Joe estava meio devagar com o carro em movimento. Ela retirou a calça de Joe rapidamente com agilidade e massageou seu órgão genital com prazer. Joe beijou Olívia com vontade, abrindo suas pernas e as encaixando em sua cintura enquanto ele a penetrava com força, e a garota gemia em meios aos risos. Jacob bebia mais no banco da frente do carro enquanto Joe transava com Olívia. Ele não sabia como, já que o carro estava em alta velocidade e Jacob não parava de rir com o efeito da bebida.
 Em seguida, Joe passou para o banco da frente no lugar de Jacob, e ele e a outra garota foram pra trás, ficando Joe e Olívia na frente novamente. Os dois estavam suados e riam escandalosamente. Joe pegou algo no bolso e acendeu um isqueiro. Maconha. Ele disse que precisava relaxar.
 Após isso, tudo aconteceu muito rápido.
 Joe parecia não olhar a estrada. Tudo a sua frente ficou nebuloso e embaçado. Quando se deu por si, Joe perdeu o controle do volante e o carro deu um zigue-zague que quase atropelou algumas pessoas na pista. Isso seria o de menos, se o carro ainda não estivesse revirando louco pela estrada. Foi quando Jacob também pareceu acordar.
 — Joe, pare! — o garoto berrou.
 Mas Joe não estava ouvindo. O carro parecia descontrolado. Á frente deles se encontrava uma rua feita inteiramente de cabanas de feiras, e estava lotada de pessoas, e o carro avançava para aquele lado. Joe virava o volante como um maluco tentando parar o carro ou virá-lo em outra direção, mas não conseguia. As garotas agora gritavam apavoradas dentro do carro. Em menos de 2 minutos, eles estavam passando a uma velocidade inacreditável pelas barracas de feira, destruindo que viam pela frente, derrubando alimentos no chão e quase matando umas dezenas de pessoas.
 O carro seguia desgovernado. As pessoas saltavam ao ver que o carro se aproximava deles e destruía tudo que se via pela frente, fazendo o vidro do carro estar cheio de coisas amassadas como melancias e mamões. Joe não enxergava nada, mas tentava como um louco parar o carro.
 Mas, infelizmente, mal vendo as coisas á sua frente, Joe sentiu um baque no peito e os vidro se quebrando a sua frente. De repente ele não enxergava nada. Tudo ficou escuro e ele fechou os olhos, mergulhando na inconsciência.

Capítulo 4 - "Aurora"

“Vivo em um texto 
fora de contexto que já encontrou mil 
pretextos para fugir de si.” — Catedrais.

   O quarto das meninas estava infestado de roupas, tanto em cima das camas quanto no chão, a medida que Selena escolhia e enfiava quase tudo na mala. Isabella tentava com esforço acompanhá-la, mas não fazia ideia do quanto Selena estava anciosa para sumir com tudo aquilo.
 O quarto estava vazio. Apenas Selena e Isabella estavam nele, arrumando a mala da garota. Por incrível que pareça, Selena não parecia se lembrar de nada do dia anterior. Não que não se lembrasse, mas aquilo parecia uma lembrança muito distante. Isabella também não tocava no assunto, apesar de estarem atentas que a escola inteira não falava em outra coisa. "A gostosa Selena Gomez finalmente se revelou."
 O dormitório de Selena e as outras era gigantesco, assim como todos os outros. O chão era revestido de madeira e haviam três camas muito grandes em cada canto. A primeira era de Isabella. Era grande e tinha um edredom branco. Na mesinha de cabeceira ao lado, havia uma foto dela com a mãe e a irmãzinha, e, comparada as outras fotos em sua parede atrás, essa era a única foto que ela tinha com a família. As gavetas do criado-mudo estavam abarrotadas de chocolate e doces, mas isso não era novidade pra ninguém. Na parede acima da cama, havia um mural com inúmeras fotografias coladas na parede. A maioria eram com Selena, em várias posições e nos mais admiráveis lugares. Embaixo de cada fotografia, se podia ler: "Minha amiga maluquinha", ou "Minha melhor amiga" em lugares como Suíça, Los Angeles e Índia. As demais fotografias eram com outras pessoas e também dos artistas favoritos de Isabella.
 A outra cama, na frente, era de Selena. Era um exagero de rosa. Sua cama parecia ser uma das maiores e com um edredom rosa claro, com algum detalhes de borboletas ao lado. Havia mesinhas de cabeceira dos dois lados de sua cama, e um armário branco ao lado, que estava infestado de livros nas prateleiras. Em uma mesinha, havia uma fotografia muito grande de seu pai, Jayden Gomez. E na outra, uma foto dos dois em Londres, na frente de um hotel muito chique. As gavetas estavam repletas de maquiagens, e de outras coisas, como acessórios postos em várias caixas e suas bolsas.
 A terceira e última cama, e a que estava mais distante, era igualmente bonita como as outras. Seu edredom era um toque de verde claro, igualmente a parede atrás. Aquela cama parecia ser um pouco melhor, mas parecia mais confortável. Em sua mesinha de cabeceira estava um abajur sofisticado e a cama estava em perfeitas condições, como se ninguém estivesse estado nela por um tempo muito longo. Havia um tapete felpudo a frente desta, muito branco. Não haviam fotos e nem nada na parede atrás, como se a pessoa que estivera ali tivesse ido embora.
 As paredes do quarto eram impressionantes. Havia apenas um papel de parede cobrindo tudo, e eram com o desenho de nuvens. Nuvens em um céu azul, e era muito decorado com pisca-piscas por toda parte, um verdadeiro varal de pisca-pisca. No lado direito do quarto, havia uma pequena escada em caracol que levava para outra parte de cima do quarto, igualmente com pisca-pisca e o papel de parede com nuvens. Os degraus eram brancos, assim como o corrimão. A parte de cima do quarto era pequena e nada comparada com a magnitude da parte de baixo, mas bastava para apenas 3 pessoas. Lá haviam um closet gigantesco, que empilhavam tantas roupas que era capaz de morrer axificiado lá dentro. A maioria eram de Selena, é claro. Haviam também outros armários, mas menores e feitos apenas para guardar malas e etc. Ao lado do closet, na beira do andar de cima, havia um espelho gigantesco na parede, que pegava do chão ao teto, enfeitados ao lado por mais pisca-pisca e sua borda era cor-de-rosa. A sua frente, havia uma mesa de madeira branca com muitos perfumes e maquiagens, junto com uma cadeira de veludo preto. Selena passava a maior parte do dia ali.
 Embaixo da escada, presa á parede, havia uma TV de 60 polegadas, mas quase nunca era usada pelos estudantes, e também servia para o diretor dar avisos sem ter de sair de seu gabinete.
 Todos os dormitórios eram iguais em sua planta, e os alunos agradeciam por poder decorá-los a sua vontade.
 Selena continuava colocando suas roupas delicadamente dentro de sua mala em cima da cama, como se fossem coisas de quebrar. Seu notbook da Apple branco estava aberto e ligado em de cima de sua cama, uma página aberta sobre as ilhas do Caribe.
 Selena parecia pronta pra sair. Usava uma calça jeans preta de cintura alta com uma blusa rosa solta de mangas. Calçava tênis vans vermelhos e seu cabelo solto leve.
 Isabella não parava de encarar a amiga. Selena não parava de sorrir, só de imaginar que veria o pai. Ela agora arrumava a mala mais depressa, pois já estava sabendo que o pai estava ali na escola naquele momento, na sala do diretor. Selena sabia que era sobre ela que eles conversavam, sua travessura do dia anterior, mas não deixou isso abater sua excitação da viagem de férias.
 Isabella também estava pronta pra sair. Usava uma camiseta cinza de mangas e shorts jeans, com seu cabelo ruivo preso em uma presilha atrás da cabeça. Seus olhos azuis pareciam mais fortes naquele momento, sob a luz dos pisca-piscas.
 Isabella pigarreou, se virando para Selena.
 — Você não acha estranho o seu pai ter vindo falar com o diretor e não ter passado aqui pra te ver? — falou, dando de ombros.
 Selena sorriu.
 — Não. — respondeu ela.
 Ela pegou a fotografia do pai em cima de sua mesinha de cabeceira e deu um beijo.
 — Esse é o jeito dele de me dizer que está zangado. Mas eu acho que no avião eu vou levar uns 2 minutinhos pra ele ficar calminho. — as duas riram enquanto Selena se sentava em sua cama bagunçada de roupas.
 De repente a porta se abriu num baque, e Selena e Isabella arregalaram os olhos. Joe e uma garota estavam atracados aos beijos como dois leões ferozes. Ele segurava a cintura da garota com força enquanto apertava sua bunda com a outra mão. A garota era uma loira colossal com olhos muito azuis, e Selena a reconheceu na hora. Ela vestia um vestido roxo curto e soltinho, com uma blusinha de frio branca que estava puxada até os cotovelos. Joe parecia colocar as mãos por baixo do vestido da garota.
 Quando finalmente notaram que não estavam sozinhos, a garota olhou constrangida para Selena e Isabella, que continuavam imóveis e se seguravam para não rir. Joe coçou a cabeça. Não parecia nada envergonhado com tudo aquilo.
 A garota rolou os olhos pelo quarto e juntou as sobrancelhas.
 — Quem fez isso no meu quarto?! — ela arfou, vendo que haviam roupas de Selena espalhadas por toda parte — Deve ter sido você, não é? — ela apontou para Selena, com desprezo.
 — Ai, calma! Não se estressa. — Selena mal parecia ouvi-la, estava ocupada demais com sua mala — Olha, em vez de ficar reclamando, porque você não dá um trato no seu cabelo? Porque, me desculpe, mas essas pontas estão horríveis. — ela soltou uma risada — Não fica zangada.
 A garota olhou para Selena com profundo ódio.
 — Sabe que eu não te suporto? Eu vou agora mesmo pedir que me mudem de quarto!
 E ela saiu, batendo os pés e bufando de raiva, tanto que nem percebeu que Joe continuava parado a porta, apenas observando a cena.
 — Espera aí... — tentou Isabella, mas a garota já tinha ido.
 Selena parecia ter uma expressão de choque.
 — Você viu? Que garota estranha. — ela levantou o cenho.
 — É, Selena, exagerou. — falou Joe, pela primeira vez. Ele cruzou os braços e se aproximou da cama de Selena — Sinceramente, eu acho que não é bom você armar um escândalo depois do que fez ontem.
 Selena deu um sorriso sarcástico ao garoto, e se levantou.
 — Quer saber de uma coisa? Acho bom não esquecer que estou acima do bem e do mal. — ela piscou, ficando de frente pra Joe.
 — É mesmo? — ele deu de ombros, se aproximando mais de Selena. Ou melhor, de seus lábios — Mas se você for expulsa, como é que nós vamos ficar juntos?
 Selena soltou uma gargalhada e se virou para Isabella.
 — Que lindo, não é? — ela apontou para Joe — Sabe qual é o problema, fofinho? Eu não tenho vocação pra babá. Entendeu, bebezinho?
 — Bebê? — ele fez uma expressão sem entender enquanto Isabella ria da cena.
 Antes de Selena falar algo, seu próprio pai entrou no quarto. A garota soltou um gritinho e correu até ele.
 — Papai! — ela o abraçou — Eu pensei que era o William que viria!
 Jayden olhou para os outros no quarto.
 — Podem nos deixar a sós, por favor? — pediu ele, em tom seco.
 Joe rapidamente disse "É claro, com licença" e se retirou do quarto, lançando um último olhar sedutor para Selena. Isabella largou as roupas de Selena em um canto e deu um abraço em Jayden antes de sair.
 — Pai, que bom que você veio! — Selena estava vibrando de felicidade — O que aconteceu?
 — Aconteceu uma coisa muito grave, filha.
 O sorriso de Selena murchou por alguns segundos, tentando assimilar a situação.
 — Ai, que cara séria é essa? — falou ela, pensando que era uma bobagem — Porque você não me ajuda a arrumar a minha mala? — ela foi até a cama novamente, sorrindo — E na viajem você me conta tudo com calma, vamos ter muito tempo...
 — Não vai ter mais viajem, Selena!
 Selena parou abruptamente, piscando os olhos.
 — Esqueça as férias. — Jayden suspirou.
 Selena continuava chocada. Era como se o pai tivesse dito que iria cancelar seus cartões de crédito pra sempre, mas muito pior do que isso.
 — Como assim? — a voz da garota falhou.
 Jayden olhou para a filha com certa pena, mas logo essa expressão passou. Ele era bom quando se tratava de ser duro com Selena na hora certa, não importava a cara de choro que a garota fizesse.
 — É o castigo pelo que você fez. — explicou Jayden.
 Selena torceu os dedos, ainda encarando o pai. Ela não viu nenhuma compaixão ou pena, e sua desconfiança de que ele nunca quisera passar o tempo dele com ela só crescia. Ela sabia que havia feito uma burrada na noite anterior, mas acreditava que o pai havia pedido aquilo, por não cumprir sua promessa.
 Seus olhos começaram a ficar marejados. Ela simplesmente não sabia o que dizer.
 — Mas... — ela balançava a cabeça — Pai, mas... Eu nunca vejo você, pai. — ela se aproximou dele — Nem nos fins de semana você está comigo. — ela soluçou — Pai, porque não amarra um lacinho em mim e me dá de presente?
 Jayden suspirou. Ele já previa a reação de Selena antes mesmo de pronunciar as palavras.
 — Não. — ele balançou a cabeça negativamente — Faço isso pro seu bem. Você tem que aprender a respeitar as normas.
 Uma lágrima rolou de seu rosto. Ficar na escola durante as férias? A viajem tão esperada as ilhas do Caribe não aconteceriam mais? Era isso?
 — Se não me levar... — sua voz estava completamente embargada — Eu não vou te perdoar nunca. — ela trincou os dentes.
 Jayden baixou os olhos, como se a conversa já tivesse acabado pra ele.
 — Eu sinto muito. — ele sussurrou — É uma lição que eu tenho que te dar, ainda que me doa. O que você fez foi demais, Selena. Fez um papel ridículo no colégio, deixou o diretor com vergonha, e...
 — Ok, ok, eu sei! Isso importa muito. — ela enxugou o rosto com as costas da mão — Mas eu fiquei te esperando, pai. Eu preparei uma coreografia pra você. Eu estava esperando você chegar pra me ver e você não chegou. — ela bufou, agora chorando alto — Mas você se importa mais com o ridículo, não é? Se importa mais com o ridículo do que com os sentimentos da sua filha! — ela aumentou o tom de voz.
 Jayden permanecia quieto. Não sabia o que dizer, mas o que mais diria? Pra ele, o assunto já estava encerrado.
 — Você sabe o que eu senti? — continuou Selena — Eu te esperei horas, pai, e você nem apareceu!
 Selena agora sentia raiva. Ela sabia exatamente que aquela não era a primeira vez, ela já até perdera as contas de quantas vezes seu pai já havia lhe dado esse tipo de furo. A garota enxugou o rosto mais uma vez e saiu do quarto o mais rápido possível.

 Demi saiu do táxi na Brentwood, perto da Getty Center, já que ela e a mãe ainda estavam em Los Angeles. Ela pagou algumas notas para o motorista, que se mandou rapidamente. Demi inspirou e colocou seus óculos escuros, se sentando em um banco verde de mármore em uma das calçadas. Demi vestia uma blusa azul-marinho sem mangas com um colete azul-claro preso, com uma calça jeans clara e sapatilhas.
 Ela não parecia ser uma turista naquela região da cidade, parecia mais estar esperando uma pessoa.
 Demi verificava o celular constantemente, e também olhava para os lados como se estivesse sendo observada. Quem olhasse, achava que estava fugindo de algo.
 De repente, no final da rua estreita, um carro apareceu. Era um carro incrível, totalmente do ano e com certeza chamava a atenção pra quem o visse. Parecia um dos carros caros das propagandas da TV, mas Demi não pensou nisso quando ele estacionou bem a sua frente.
 A porta de trás abriu e uma figura apareceu. Uma figura de barba rala e cabelos levemente cacheados, posto num terno de grife. O pai de Demi.
 Ao vê-lo, Demi se levantou entediada.
 — Queria falar comigo? — disse ele, se aproximando da menina — Bem, eu estou aqui.
 Demi não sabia como cada palavra que saía da boca daquele homem pudesse irritá-la tanto, então não fez esforço algum para parecer gentil.
 — Escuta aqui...
 — Por favor, filha. — ele suspirou, se arrependendo de ter pensado por um segundo que Demi o trataria bem — Não faz assim. Eu sou o seu pai.
 — Ah, é? Não me diga. — ela deu uma risada irônica — Já tinha esquecido, eu não vejo você.
 — Minha filha, por favor...
 — Me chame de Demi, os estranhos me chamam assim! — ela bufou, não vendo a hora de se mandar daquele lugar — E se quer que eu vire freira, deixa eu te dizer que...
 O homem olhou para Demi confuso.
 — Não, não. — ele balançou a cabeça — É um internato, não é um convento.
 — Pra mim dá na mesma, ok? Esquece! Não vou aceitar.
 — Olha, você é muito nova pra entender, mas quando for adulta vai entender e me agradecer. — ele deu um sorriso fraco.
 Demi revirou os olhos. Não chegariam a lugar algum com aquela conversa. Aquele sujeito não iria se opôr tão fácil, e se ele desistisse, ela teria que ir pra Europa, custe o que custar, com aquele mesmo sujeito. Ela não podia acreditar no que aquilo estava se transformando.
 Demi estava tão atônita que não havia percebido uma pequena confusão com os policiais bem na frente do carro do pai. O motorista, um homem jovem bonitão e musculoso de cabelos negros, discutia com dois policiais a sua frente. Um deles era alto e magro, com cabelos claros e olhos azuis. O outro era moreno, com a pele escura e cabelos black-power. Ambos discutiam com o motorista bonitão que parecia ser cego para não enxergar a placa de "não estacione" bem em frente a calçada.
 Seu pai não parecia estar percebendo nada daquilo, mas Demi teve uma repentina ideia. Seria loucura, é claro. E por isso mesmo ela iria colocar em prática.
 — Tem razão. — ela disse repentinamente, se virando para o pai, em um tom doce e meigo — Pai... — ela o abraçou forte pelo pescoço, enterrando o rosto em seu peito — Senti muito a sua falta, pai!
 O homem não sabia o que fazer, mas não podia esconder que estava feliz. Abraçou Demi imediatamente, com um sorriso no rosto.
 — Eu também, minha filha. — ele sorriu, acariciando os cabelos de Demi.
 — Me abraça forte. — Demi pareceu esganar o homem, que pareceu não sentir nada, tamanha era a felicidade — Me dá um beijo. — ela choramingou.
 — Claro! — ele sorriu, dando um beijo em sua testa — Eu te amo, meu amor!
 E de repente, Demi fez algo inacreditável.
 — Ai, me solta! — ela berrou, empurrando o homem com tudo pra longe com um grande soco.
 Seu pai a olhou espantado.
 — Seu velho, safado, imundo! Seu estúpido! ME SOLTA, ME SOLTA!
 Ela berrava, e o homem não sabia o que fazer. Como previsto em seu plano, os policiais rapidamente apareceram a seu lado, deixando o motorista do senhor Lovato muito aliviado por não receber uma multa.
 — O que está havendo aqui? — perguntou o policial de olhos azuis. Ele olhava de Demi para o pai, com uma expressão confusa.
 — Nada, eu não fiz... — tentava dizer o senhor Lovato.
 — Esse velho queria abusar de mim! Seu estúpido! — Demi gritou, apontando para o pai, a raiva espumando dentro de si.
 Um dos policiais, o mais escuro, por um momento olhou espantado para o homem e depois para Demi. Pela sua expressão, até ele não sabia o que fazer nem dizer naquele momento. Demi estava histérica, nada parecia muito nexo.
 — Ér... Vamos, senhor. — disse o policial, pegando em um braço do senhor Lovato.
 — Esperem, eu posso explicar! Não é nada disso, ela é minha filha! — ele falou alto, ainda chocado pela atitude de Demi, enquanto ia sendo arrastado para uma viatura na esquina — Demi, explica pra eles... DEMI!
 Só que Demi não estava mais lá para escutar nada. A garota já havia entrado no primeiro táxi que passara pela rua, e estava gargalhando. Sabia que seu pai não chegaria nem perto da delegacia, ele tinha os melhores advogados do mundo, mas além disso ele tinha dinheiro. Mesmo assim, a ideia da tremenda diversão não saía da cabeça da garota.

 A Academia Yancy estava cheia naquele momento. Todos os alunos que sairiam de férias com os pais começavam a se retirar da escola naquele momento, o que era uma multidão. Vários carros esperavam nos portões da instituição naquele momento, vários pais esperando os filhos com malas e sorrisos no rosto.
 A secretária, a loira dos óculos enormes, andava pela escola na multidão com uma mulher a seu lado. Hoje ela vestia calças jeans e uma blusa de mangas compridas, as quais ela havia enrolado até os cotovelos. Estava com os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e seus olhos pareciam mil vezes maiores daquele jeito.
 A mulher a seu lado era alta e magra, com cabelos pretos cheios e olhos azuis. Ela era linda, e traços em seu rosto mostravam que ela se aproximava da velhice. Mesmo assim, a mulher vestia um vestido preto de alcinhas com a parte inferior florida, com sapatilhas pretas. Parecia bem humilde, a julgar que ficava impressionada a cada coisa que a secretária lhe apontava.
 As duas andavam pela escola vagamente, a secretária parecia muito bem estar apresentado a escola para a mulher, que como disse, ficava impressionada a cada detalhe.
 — E este corredor vai dar numa área dos dormitórios. — ela apontou para um corredor largo e estreito — É claro, as mulheres e os homens estão bem separados, como deve ser. — ela deu um sorriso simpático — Na Academia Yancy temos três objetivos fundamentais: disciplina, excelência acadêmica e respeito.
 Agora as duas se aproximavam do corredor central. Era uma área bastante larga. As paredes eram revestidas de pedra rústica. No meio do corredor havia uma estrutura de mármore negro colada ao chão, como um retângulo aberto. Vários alunos se sentavam ali nos intervalos das aulas, sua espessura era do tamanho de uma pessoa, assim tinham uns que até se deitavam no mármore gelado.
 Para todo lado que se olhava, viam-se corredores para as diversas direções. Para as salas de aula, os dormitórios ou para sair da escola. Haviam banquinhos de veludo vermelho presos ás paredes em toda parte, e as janelas de vidro eram gigantescas, o que dava para ver o campus lá fora. No lado direito, havia uma escada enorme e branca, que levava para outras salas de aula e dormitórios no segundo andar. Havia escadas espirais dos dois lados, cada uma levando para mais salas e dormitórios diferentes. Colados ás paredes tinham os armários, todos em um tom forte de azul.
 A mulher ao lado da secretária ficava impressionada com tudo, parecia uma criança entrando na Disneylândia pela primeira vez.
 — Escute, eu quero perguntar uma coisa. — a mulher falou pela primeira vez — O que me interessa saber sobre a bolsa?
 A secretária abriu um sorriso alegre, como se tivesse prazer ao falar daquele assunto.
 — Ah sim. A cada ano, um grupo de jovens de poucos recursos tem a oportunidade de entrar pro nosso colégio. Eles fazem uma prova muito rigorosa, porque temos de ter certeza de que tem o nível intelectual adequado. — ela disse, ajeitando os óculos enormes.
 — Na realidade, eu não tenho...
 — Emma! — gritou uma voz feminina.
 A secretária rapidamente se virou ao ouvir seu nome. Uma garota loira descia as escadas em passos pesados, usando um vestido roxo, com a expressão de tremenda. Era a garota do quarto de Selena.
 — Eu quero que você me mude de quarto! — ela falou alto ao chegar perto de Emma com a mulher — Eu não suporto a Selena! Quem ela pensa que é, aquela vadiazinha? A rainha da Inglaterra?
 Emma colocou as mãos na testa, entediada. A garota ainda a olhava com raiva, esperando uma resposta. Emma olhou de soslaio para a mulher a seu lado, que permanecia calada, e ficou completamente constrangida.
 — Tudo bem, minha querida, arrume suas coisas, depois conversamos. — ela deu um sorriso forçado para a garota, como se a mandasse embora só com a força dos olhos.
 — Acho isso o cúmulo, sabia?! — ela gritou pela última vez antes de se retirar.
 Emma deu um riso sem graça ao se voltar para a mulher.
 — Aqui os alunos se sentem como se estivessem na casa deles. — ela deu um sorriso amarelado.
 — Tudo bem. — a mulher riu.
 — Além disso, nas férias oferecemos aos alunos o Club de Vacaciones. — ela sorriu.
 A mulher a olhou confusa.
 — O que é isso?
 — É o nosso clube de férias. É um lugar onde os alunos descansam e vão se conhecendo uns aos outros antes de começarem o ano letivo. — a mulher assentiu — Eu me refiro aos alunos novos, como a sua filha.
 A mulher hesitou, como se estivesse incomodada.
 — Bom... Ela não é minha filha. — ela deu um sorriso fraco — É minha sobrinha, mas eu a amo como se fosse minha filha realmente.
 — Sim, claro. — Emma assentiu — Bom, venha por aqui.
 As duas seguiram por mais um corredor estreito, quando pararam no meio do caminho.
 As duas deram de cara com o deputado Collins e sua esposa, que como sempre, estavam cercados por no mínimo dois seguranças. Emma sentiu náuseas. O senhor Collins estava como sempre: barrigudo e carrancudo, com seu inseparável charuto. Sua mulher, uma jovem alta e escultural loira de cabelos encaracolados e olhos azuis com metade de sua idade, estava usando um vestido caro preto de setim, com seu inferior florido de verde. Seu salto era enorme.
 Ela também fumava um cigarro, o que fez Emma se controlar para não mandá-los pro inferno.
 — Com licença, Emma. — disse a mulher, dando um sorriso animado que não foi correspondido pela secretária — Onde podemos encontrar o Joezinho?
 Ah, claro, estavam procurando o filho. Não pisavam no colégio para fazer outra coisa, afinal.
 — Acredito que esteja no quarto dele terminando de arrumar as coisas. — respondeu Emma educadamente.
 — Que sapatos lindos! — exclamou a mulher com Emma, falando pela primeira vez. Ela apontou para os sapatos da primeira-dama, como se estivesse se segurando desde que a vira.
 A mulher deu um sorriso anormalmente largo.
 — Muito obrigada! — ela piscou para a mulher, com certeza mostrando bem sua capacidade e condição de comprar sapatos caros.
 Emma bufou.
 — Podem ir ao quarto, por favor! — ela interrompeu o começo de um diálogo chato e melancólico sobre os sapatos italianos da esposa de Collins e apontou para a escada da esquerda — Já sabem onde é.
 — Com licença. — disse o senhor Collins, puxando a mão da esposa e desaparecendo escada acima.
 A mulher ainda parecia atônita com os sapatos da primeira-dama, e os seguiu com os olhos até desaparecerem na escada.
 — Aquele não é Michael Collins, o deputado? — ela pareceu "acordar" de repente.
 Emma revirou os olhos.
 — Ér... Venha por aqui, por favor. — ela puxou o braço da cliente, que ainda virava o pescoço para poder olhar melhor o deputado.
 — Como é lindo, não é? — ela murmurava enquanto seguia Emma pelos corredores.

 O deputado e sua esposa se aproximavam do quarto de Joe, mas o local estava completamente vazio. Naquele mesmo momento, Joe atropelava algumas pessoas no caminho enquanto praticamente corria para a saída da escola. Sabia que iria ter que viajar para não sei onde com o pai para mais uma campanha eleitoral, e ele de repente ficara apavorado com a ideia de perder suas férias com coisas tão fúteis. Isso não entrava em sua cabeça.
 Ao chegar no estacionamento, Jacob já estava lá, encostado na porta do táxi que os esperava. Joe ajeitou a mochila nas costas e correu até o amigo.
 — Ninguém me viu. — ele disse, arfando.
 Jacob sorriu.
 — Muito bem, vamos nessa. — ele abriu a porta do carro, entrando no táxi pela porta do carona. Joe rapidamente entrou no banco de trás e o motorista cantou pneu no estacionamento.

 O dormitório de Joe estava intacto, como se ninguém nunca tivesse pisado nele. O dormitório tinha a mesma planta que todos os quartos do colégio, com a mesma escada no fundo que leva aos closets e a TV enorme. A diferença era apenas a decoração. As três camas tinham o mesmo edredom azul-marinho, e uma mesinha-de-cabeceira ao lado de cada cama. As paredes eram pintadas de preto, com vários postêrs de carros e mulheres colado e o teto era branco, pendendo uma luminária gigantesca. A primeira da frente sem dúvida era a de Joe. Em sua mesa, havia apenas um abajur. Na parede acima da cama havia apenas um retrato de Joe segurando um violão nas costas, e em outro havia ele e Jacob segurando pranchas de surf na praia de Malibu. Nada de retratos de família.
 A outra cama, na frente da primeira, era a de Jacob. Em sua mesinha estava um notbook fechado e uma luminária pequena. Em uma das gavetas havia uma revista da Playboy, mas isso não era novidade pra ninguém. Ao contrário de Joe, no mural de fotos de Jacob haviam várias. Fotos com a família e muitas com Joe. Retratos de shows e eventos musicais ao qual ele havia ido, shows como de Beyoncé e Maroon 5 enfeitavam a parede, vários com sorrisos do garoto estampado.
 A terceira cama, a mais distante, estava vazia. Não havia nada na mesa e nada nas paredes. Se alguém ocupava aquele lugar, aparentemente não ocupava mais.
 No armário gigante perto da cama de Joe, havia uma fila de CDs e um iPod jogado. Havia um aparelho de som um pouco velho, e uma das extremidades do armário havia um papel colado escrito em letras exasperadas: vote em Collins!
 Michael ficou apreensivo ao ver o quarto vazio. Podia ver a mala de Joe em cima da cama do garoto, mas onde ele estava?
 Antes de ter tempo para se irritar, um garoto chegou até ele. Ele tinha os cabelos muito loiros espichados e olhos castanhos. Era magrelo e desengonçado. Parecia apavorado de estar chegando perto do deputado.
 — Senhor Collins? — ele murmurou.
 Michael olhou pro garoto.
 — Sim?
 — Aqui tem um recado. — o garoto estendeu um fino pedaço de papel — O Joe que deixou.
 Michael pegou o papel confuso, como se fosse uma bomba.
 — O Joe que deixou? — ele disse, ainda confuso. O garoto apenas assentiu, e foi se afastando — Que estranho.
 Michael deu mais uma tragada no charuto antes de ler o bilhete. Ao terminar, sua expressão era de raiva e completa decepção. Sua mulher olhava o marido, esperando uma resposta.
 — É o cúmulo. — ele bufou, apertando o papel com tanta força que quase o amassou.
 — O que? O que ele escreveu? — perguntou ela, ansiosa.
 Ele a encarou, como se quisesse matá-la só por fazer ele ter que ler o maldito recado de novo. Por fim, ele recitou:
 — "Pai, mãe... Eu fui embora. Não importa pra onde. Não se preocupem, eu sei me virar sozinho. Depois eu ligo." — Michael bufou, amassando o papel.
 Sua esposa estava de olhos arregalados.
 — Ele fugiu! — disse ela, com a voz falha — Ah não...
 — Calma, não se preocupe. — ele tentou acalmá-la, olhando para o bilhete amassado em suas mãos. Pensava em todas as maneiras possíveis de matar Joe, porque ele com certeza estava muito encrencado.

 Em algumas horas, Joe e Jacob estavam na Califórnia. Pra ser exato, estavam em Salinas, uma cidadezinha do estado meio parada e monótona. Eles não queriam saber, só queriam passar um tempo fora da Yancy e daqueles rostos que estavam enjoados de ter que encarar. Joe sabia que estava encrencado até o pescoço, mas naquele momento aquilo era o de menos.
 Finalmente, haviam chegado a seu destino. A casa de Jacob já estava sem graça pra Joe, de tanto que estivera ali, mas estava vazia, o que tornava tudo melhor.  (casa)
 Eles entraram e se acomodaram. A casa estava vazia, exceto pela empregada, que delas eles não poderiam fugir.  Ela era uma mulher jovem com cabelos lisos até os ombros cor de caramelo e uma pele bronzeada. Na opinião dos garotos, sim, era bastante gata. Mas não se atreveriam.
 A tarde se arrastava devagar. Joe e Jacob já haviam curtido na piscina, bebido tudo que tinham direito, e não podiam deixar de fora a diversão principal. Joe e Jacob eram amigos desde sempre, por isso não tinham segredos. Joe pegou a maconha da mochila, uma coisa que ele usava de vez em quando, já que passava a maior parte do tempo em uma prisão. Ele e Jacob "usavam" a pouco tempo, aquilo os ajudava a relaxar, ao que diziam.
 Os garotos estavam sentados nas cadeiras da varanda principal da casa quando a empregada foi até eles, com o telefone na mão.
 — Ér... É do colégio. — ela colocou o telefone em cima da mesa — Com licença.
 A empregada se retirou e o coração de Jacob pareceu virar chumbo. Ele e Joe se entreolharam, parecendo pensar a mesma coisa. Eles estavam na Califórnia, como os haviam descobrido?
 Joe rapidamente pegou o telefone, colocando as mãos no lugar onde podiam os ouvir.
 — Ah, não, cara. Agora vai dar merda! — Jacob sussurrou, começando a ficar nervoso.
 — Atende você. — falou Joe, estendendo o telefone para Jacob.
 — Como assim, cara? Não!
 — Jacob, por favor! — Joe trincou os dentes. Jacob continuava relutando — Jacob, por favor, é o meu pai, ele quer saber onde eu estou!
 Jacob olhou do telefone para Joe, e em seguida pegou o objeto da mão do garoto, relutante.
 — Cara, isso vai dar a maior merda da história. — ele pegou um guardanapo das mesas na beira da piscina e abafou a entrada de som. Em seguida, ele deu umas tossidas e falou em uma voz grossa e diferente: — Alô, boa tarde... É, sim, ele não se encontra... Não, ele não está aqui... Jacob chegou aqui a umas 4 horas... Sim, com muito prazer... Boa tarde. — Jacob desligou o telefone, mas não o tirou da orelha — Sim... Joe Collins está aqui, quer que eu passe pra ele?
 Joe escancarou a boca e deu um empurrão em Jacob, completamente apavorado.
 — O que está fazendo?! — ele "gritou" em sussurros.
 Jacob retirou o telefone do ouvido e explodiu em risadas. Joe entendeu a brincadeira e o olhou sério, com a mão no peito, dizendo o quanto Jacob fora sem graça e assustador com a brincadeira.